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Coluna do Adilson Cardoso – A Jaqueta de couro preta

Coluna do Adilson Cardoso – A Jaqueta de couro preta

Eu morava num conjunto de prédios invadidos, os caras de coordenavam a gente, diziam ser do MOTRAURMO (Movimento dos Trabalhadores Urbanos sem Moradias) pregavam que tudo devia ser socializado entre os moradores, mas a mobília da casa deles, nem se comparava aos cacos que os outros tinham. Uma vez que olhei da fechadura do 408, onde morava Martinez, o comandante supremo, pensei que estivesse fitando o apartamento do Doutor Paulinelli, o advogado venal que defendia traficantes e ladrões de banco. Só garrafa de whisque devia ter umas dez, além de duas dessas televisões gigantescas, que as brutas propagandas capitalistas, não param de mostrar nos pequenos aparelhos de tubos e chuviscos que temos em casa. Eu teria ficado ali por mais tempo, contemplando o que o nosso dinheiro comprava para aquele filho da puta, mas a dona Eurídice da porta ao lado apareceu com sua fala desconfiada.

— Que é que tá bisbilhotando ai na casa dos outros hem moleque? Se o seu Martinez te pega ai pune seus pais com uma multa, eu quero ver como vão pagar!

— Estou entregando a correspondência dele que estava na portaria! Não pode?- Falei apontando os papeis que tinha nas mãos!

— Cadê seu Honório? Isso é serviço dele! – Disse a velha com rispidez.

— Tá aqui ó! – Falei tirando o pênis fora da calça e sacudindo para ela.

A velha afrontada falou mil coisas que não me dei tempo de ouvir. Desci correndo com os papéis velhos, que não eram correspondências nenhuma e fui para o pátio dando gargalhadas. O tempo estava frio, pessoas andavam nas ruas de braços cruzados, enfiados dentro dos casacos, eu tinha apenas uma blusa de lã toda esfolada, que fora de um filho da dona, que minha mãe lavava as roupas dela. Esse povo rico de merda, acha que está fazendo favor para o pobre, doando seus trapos que iam para o lixo. Lembro-me que naquele dia, minha mãe chegara cheia de sorrisos com um saco na cabeça cheirando a naftalina, me mostrou a blusa, dizendo que com um pequeno remendo embaixo do braço e, uma costura no punho, dava até para eu ir ao baile funk. Junto dos molambos, também havia cuecas que deixaram meu pai feliz, a ponto de escancarar sua boca de poucos dentes e agradecer a Deus, também com razão, a cueca melhor que ele tinha só desgrudava da sua bunda seca, quando dormia a noite. O resto do tempo era tirando, lavando e vestindo, aquela tradicional freada de bicicleta já estava crônica.

— Tá com frio não neguim? – Falou Valmar com sua jaqueta de couro que tinha o desenho de uma Aguia nas costas. Ele era  o segundo abaixo do Martinez na hierarquia pilantra  do MOTRAURMO!

Eu não disse nada. Morria de inveja daquela jaqueta e não gostava dele. Fuzilei o imbecil com o ângulo mais cruel do meu olhar. Lembrando que minha mãe dissera que um mal olhado pode matar. Queria apenas lhe provocar um câncer  que apodrecesse a língua em poucos segundos.

— Que foi que tá olhando assim pra mim? – Disse ele parando pouco a frente.

— Vai tomar no cú! – Falei  me preparando para correr.

Por sorte seu telefone tocou, parecia urgente, ele saiu apressado. Mesmo assim, apontou o dedo indicador na minha direção e balançou a cabeça prometendo que cobraria depois. As pessoas dali, mais próximas dos meus pais estavam sempre dizendo que o dinheiro que davam para o Movimento que dizia organizar as famílias dos trabalhadores sem tetos, não tinha retorno. Os banheiros não possuíam água, ratos saiam de dentro dos vasos e a luz era um gato mal feito, segundo o soldado do Corpo de Bombeiros que ia comprar drogas no 206, corria-se um risco muito grande de pegar fogo e matar todo mundo. Meu pai era do amém, depois de ter passado fome no interior da Bahia, dava graças a Deus por ter aquele pardieiro, infestado de ratos, baratas, corrupção, prostitutas, veados e drogados. Para não ficar ao relento, enquanto lavava carros e levava cachorro de rico para passear.

— Você poderia ter ido morar com sua tia, lá tem espaço! Se quis ficar não reclama! – Dizia minha mãe todas as vezes que eu reclamava do cheiro insuportável de esgoto.

Eu não fui, fiquei ali porque não queria servir de engraxador de botas daquele gordo azedo, que não gostava de ser chamado de primo da gente. Esse era o destino dos outros três irmãos que moravam com eles. Antes de irem para a escola, lavavam as louças do jantar, quando chegavam, a louça do almoço os esperava, após almoçarem saiam com a velha buchuda irmã da minha mãe, que deixava cada um numa praça diferente, vendendo essas coisas falsificadas do Paraguai. Vá se foder, prefiro cheiro de merda e rato trombando nas minhas pernas de noite, sou preto, mas não sou escravo. Minha irmã ficou pouco tempo por lá, depois daquela noite que meu tio lhe mostrara o pau mole e, mandara que ela chupasse, ela nunca mais quisera saber de lá. Minha mãe não acreditara, pois meu tio chegara com sua cara cínica de filho da puta, dizendo que a menina devia passar por um Psiquiatra, pois ele tentara apenas ser carinhoso com ela e, para não deixar duvidas da sua idoneidade e coração benevolente, retirara do porta-malas do carro, uma cesta básica, com arroz, feijão, macarrão, frango congelado e uma caixa de bombons, meu pai que analisava aquele discurso sem saber se acreditava no porco gordo ou na minha irmã, decidira de forma altamente mercenária, quando recebera uma garrafa de pinga e cem reais em notas de dez, dizendo que aquele homem era incapaz de tal procedimento. Minha irmã conseguira um trabalho, na casa da senhora que minha mãe lavava suas roupas, aparecia em casa de quinze em quinze dias, mas dormia na casa da Jordana do Condomínio das Acácias, lá todo mundo havia pagado pelo seu apartamento, não era como a gente que além de invasores, vivíamos sendo furtados por aquela dupla de pilantras. Minha irmã  confidenciara a Jordana de que na ocasião daquela  pendenga na casa da tia, fizera  boquete no meu tio por cem reais. “Vagabunda!” pensei quando soube. Num daqueles sábados que meu pai chegava bêbado no final da tarde, trazendo sobras de feijoada para comermos, ele disse com um olho vermelho que o Dr Lailton, o oficial de Justiça, dono de um “São Bernardo” que ele levava para passear, avisou que na segunda todos seriam despejados, e que os lideres do MOTRAURMO tinham ciência. Os olhos do meu pai estavam vermelhos, mas não era de chorar, ele fumava maconha aos sábados quando recebia o pagamento. Estava feliz, já que o Oficial havia lhe oferecido casa na zona rural para cuidarmos como caseiros, minha mãe não precisaria mais lavar as roupas, tampouco sair de madrugada e chegar à meia noite. Minha irmã ficou feliz quando soube, mas preferiu ficar por lá, tinha esperanças de que o filho da patroa assumisse o que sussurrava nos seus ouvidos na hora do sexo. No domingo pela manhã um caminhão baú onde se lia; “Mudanças do Jair” parou na porta do pardieiro e levou aquele monte cacos que com todo o seu eufemismo, minha mãe chamava de móveis. Valmar apareceu com um papel na mão, dizia que meu pai teria que pagar um valor por quebra de contrato, mas aquele pobre lavador de carros e babá de cachorro de rico havia aprendido alguma coisa com o oficial de justiça, pois respondeu sem olhar para o sujeito.

— Vá cobrar na justiça, quem sabe vocês ganham a causa!

O carro saiu sem pressa, tinha sol e gente indo para os clubes, era um domingo de mudanças. Apertado no fundo daquele baú, sobre os cacos que minha mãe chamava de móveis, eu ia pensando sem sentimento algum por ter deixado aquela gentalha, ali se encontrava a escoria do mundo, drogados, vendedores de drogas, corruptos, putas velhas, putas novas  e os Evangélicos que insistiam em tentar encarcerar aquelas almas, para conduzi-las ao Paraiso. Enquanto isso a  irmã Venina fazia jogo duplo, tocava com Deus e sambava com Satanás, pois não saía da casa do Martinez, a velha Eurídice que morava ao lado, recitava  em pormenores a quem se interessasse em saber,

— No dia da virada do ano novo, ela veio da igreja direto para a casa do sujeito, o Pastor Selton que é uma criatura abençoada, ficou na vigília enchendo a cabeça de chifre!

 Dizia a velha repetindo com riqueza de detalhes a quem perguntasse. Ainda colocava os dois dedos indicadores na testa, simulando os chifres. Naquele mesmo domingo á noite eu voltaria ao pardieiro para a ultima visita, claro que eu não fui sozinho, convidei Dal “cigano”, Mirailton “ponta firme” e Marcos “general” sabia que Martinez e Valmar estavam se preparando para sair, deixando que os outros se fodessem nas mãos da policia, na segunda feira conforme dissera o Oficial ao meu pai. Eu avisei a alguns moradores que estavam dispostos a reaver o que os canalhas surrupiaram, subimos e quebramos as portas, a irmã Venina se despedia da piroca do Martinez e gritava o nome de Jesus cavalgando na velocidade cinco. Valmar estava falando ao celular, vestia aquela jaqueta que eu cobiçava, eu queria  ela e entrei com arma em punho.

— Tá louco neguim! – Gritou tirando o telefone do ouvido.

— Tira a jaqueta! – Gritei apontando a quadrada, ele fez pouco caso.

“General” vinha chegando com os olhos esbugalhados de tanto cheirar o pó que roubaram da boca do Variola, deu uma porrada na orelha dele com um soco inglês que tinha na mão, sangue jorrou, eu fiquei quieto. Há muito tempo havia deixado de ter piedade de excrementos como aquele, o estado violentara meu pai, lhe tirando a oportunidade de estudar, assim como fizera com a minha mãe, analfabetos do amém, o que lhes dessem comiam. Um riquinho do caralho comia minha irmã prometendo assumi-la quando a galinha nascesse dentes, já que quando gozava a mandava terminar de esfregar o chão do banheiro. Meus irmãos, meros escravos daquele casal de vermes que dizia  ser parentes, ao inferno com tudo isso, pacifico é só o nome do Oceano. Pensei com ódio puxando aquela jaqueta a força, agora queria também o celular à carteira e todo o dinheiro dele.

— Neguim é a puta que o pariu seu cuzão!

Atirei na boca dele, deu sorte que o tiro saiu pra baixo, ele estava ajoelhado, quebrou os dentes e mais algumas pontas de ossos, não sei qual, pois não fiz medicina, se morrer a culpa não foi minha. Como dizia Lampião, eu dei o tiro, mas quem decide é Deus. Fui embora correndo, muita gente gritava, ouviram barulho de tiros, tinha fogo saindo de uma das janelas, a irmã Venina estava pelada, fugindo do marido que queria explicações com um porrete nas mãos.

 —Bem feito! – Falou a velha Euridice batendo palmas, ela queria o Pastor Selton.

Pela primeira vez na minha vida, eu passaria a noite num hotel. Com relógio caro no braço, colar de ouro e carteira cheia de dinheiro. O cara da portaria me olhou varias vezes de cima em baixo até tomar coragem de perguntar.

— Você é cantor de Funk ou jogador de futebol?

“Estereotipo do caralho, preto em lugar de luxo só pode ser funkeiro ou jogador de futebol?” Pensei com vontade dar um tiro no olho dele.

— Como assim? Você não sabe quem eu sou?  – Falei encarando-o severamente.

O rapaz corou as faces, silenciou-se por alguns segundos e respondeu se desculpando.

— Mas é claro que estou te conhecendo sim! Me desculpa ai.

— Faz o seguinte, gosto de privacidade. Você me conhece, todo mundo me conhece, não vou nem deixar documento! Detesto mídia em cima de mim. Me arranje uma suíte presidencial e acorde-me amanhã ás dez! Toma aqui duzentos reais pra você tomar um Chopp na folga!

Antes de entrar no elevador eu olhei para o sujeito, ele estava  com a mão no queixo, tentando se lembrar de onde me conhecia. “Talvez fosse dali de frente mesmo, eu estivera outro dia com meu pai ajudando a lavar carros.” Pensei sorrindo, enquanto o elevador se fechava.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso