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Coluna do Adilson Cardoso – Os segredos daquele parque

Coluna do Adilson Cardoso – Os segredos daquele parque

Sou vigia aqui do Parque. Chego ás dezoito horas e só saio de manhã, ás seis. Quando chego Samir já está limpo e perfumado para ir embora, ele tem um caso com a Salete à baixinha dos peitos grandes que é cozinheira do restaurante no posto de gasolina.

Eu não falo com ele, nosso papo é no caderno de relatórios, por causa do Samir quase fui despedido, trabalho aqui há quinze anos, chego, tranco os portões faço uma ronda superficial, ligo a televisão e fico assistindo até dar o sono. Durmo mais tranqüilo que na minha casa, se perder esse com ensino fundamental incompleto não arranjo nem pra coveiro de cemitério. Sumiram ferramentas do Jardineiro Samir imediatamente tirou o dele da reta, disse que quando foi para casa, havia deixado tudo certo e que me comunicou que estava tudo em ordem. Foi minha palavra contra a dele, o gerente preferiu acreditar nele porque eu já havia furtado a panela de pressão da cantina, não sei o que dera em mim, não sou ladrão. Outro dia tomei umas cachaças e cismei que precisava matá-lo, Sabia onde ele gostava de levar a Salete e sabia também onde ele gostava de jogar sinuca. Amolei uma faca que corto carne e coloquei na capanga, sentei num canto escuro da esquina da casa dele e montei tocaia, mas o foda é que eu estava alcoolizado demais para manter-me acordado. Dormi e acordei com um policial me cutucando para avisar que haviam roubado minha bicicleta. Fiquei com mais ódio do Samir, depositei nele toda a culpa por estar sem bicicleta, sempre fui um cara honesto, fora o episódio da panela de pressão, acho que o cara só pode possuir aquilo que vem do seu suor. Mas naquela noite eu estava puto da vida. Que se fodesse os princípios, a honestidade era um fardo muito pesado para carregar naquele momento. Estava passando o jogo da copa do Brasil, o Cruzeiro disputava a classificação para as quartas de final, um monte de gente distraída olhando para um telão na praça, tinha bicicletas, carros com chaves na ignição e motos dando sopa, infelizmente não sei dirigir carro, moto só sei andar na garupa, escolhi a bicicleta mais nova e escorei nela gritando como os outros torcedores, na hora do gol enquanto todos pulavam eu corria pedalando numa descida, dava até para voltar e levar mais uma, mas me contentei com aquela. Duas quadras abaixo, um negrinho de boné trocava minha bicicleta em pedras de crack, respirei fundo e esperei ele sair da presença do traficante, desci acompanhando de longe, estava com a faca para matar Samir e a cabeça alcoolizada, fui empurrando a bicicleta devagar atrás dele, a faca estava na mão, ele fumava aquela coisa fedida que o vento soprava em mim, eu queria matá-lo, seria o meu primeiro homicídio, era um treino para matar Samir. Daria no pescoço, sentia pena de olhar aquela estrutura cadavérica, mas teria que ser assim, declarei que seu dia de bater as botas era aquele, mas antes de esticar a mão levei uma pedrada na cabeça que o sangue inundou a cara, vieram dois homens, me chutaram e levaram bicicleta e capanga, sorte que a faca havia caído, senão eu teria ido para o saco. Acordei no hospital com doze pontos na cabeça e algemado na cama, o boletim de ocorrência contra mim era por furto de bicicleta, havia alguém de olho nas câmeras por isso eu fora identificado. De nada adiantaria eu ficar repetindo que alguém roubara a minha também, só estava me complicando. Paguei fiança, tomei um sabão do gerente do parque e deixei um milhão de motivos para o Samir continuar me fritando, soube depois que ele disse que eu era um ladrão que não perdoava nada, nem as ferramentas dos amigos nem bicicletas de torcedores.  Para minha mulher expliquei tudo, contei a verdade, ela disse que acreditava.  Samir estava mais vivo que nunca no meu caderno de vingança, comecei a fazer tudo na manha, eu chegava, olhava se estava tudo em ordem, lia o relatório que ele havia deixado, me resguardava como podia, afinal já não era um réu primário, além de estar com a cara na mira do dardo do gerente. Samir é casado com a Dora, uma mulatona alta e apetitosa, apesar da quantidade de filhos que tiveram, estava com tudo em cima, a amante dele, a Salete era uma baixinha branquela e peituda, bunda batida e pernas finas, salvava o olho verde e o boquete que ele comentava. Fiquei sabendo na rádio pião que Samir ia pescar com a turma do gole, passariam três dias longe da família. Mas a coincidência era de que Salete também estaria indo, fui investigar aquilo, não era pescaria patavina nenhuma, era uma orgia que planejavam no mato, liguei para Dora e contei tudo. Disse que só estava fazendo aquilo porque eu era um cara fiel a minha esposa e, não achava legal que outros traíssem as suas. Ela agradeceu e quis falar pessoalmente comigo, marcamos no Parque, noite de sexta feira, ela fumava e tinha cheiro de álcool, mulher quando é traída fuma muito e bebe até se embriagar, eu incentivava aquela esbornia, comprei mais bebidas e apaguei as luzes do parque, Dora disse que eu era gentil e dizia coisas bonitas, falei que ela me perdoasse, mas achava seu corpo lindo, me dava tesão. Dora estava desinibida e disse que me mostraria seus peitos, para que eu visse que ela não era de se jogar fora. Elogiei e até toquei, concordando plenamente com ela, depois mostrou as outras partes, me deixou tocar e fazer carinho. Dora perguntou se ali não tinha câmeras, eu disse que não, ela acreditou em mim e nós fizemos amor. Foi a primeira vez que fiz aquilo no meu local de trabalho, aliás, foi à segunda, a primeira havia sido com um gay que vestia minissaia e andava de patins no parque, me senti vingado, havia comido a mulher do Samir na salinha onde nos reunimos, fazemos nossos lanches e assistimos televisão.  Antes de ir embora Dora me perguntou se poderia se considerar minha amante, meu coração pulou, Dora é muito bonita, eu disse que sim, ela me beijou na boca e pediu para eu comprar uma moto vermelha para ela, achei precipitado, mas quando ela pediu desculpas eu disse que iria pensar que ela não se sentisse constrangida. Passamos a nos encontrar quase todos os dias, eu financiei a moto para Dora, ele disse que eu era o seu grande amor. Ficamos naquele romance ideal, até o dia em que transferi a moto para o nome dela, na mesma noite ela mandou mensagem dizendo que não estava mais a fim de mim, Samir havia comprado uma maquina lavar novinha para ela. Depois que perdi Dora e a moto, minha vontade de matar o Samir tem voltado constantemente, principalmente depois que ele passou a vir trabalhar com a moto e freqüentar a minha casa nas noites que eu trabalho. Acho que preciso matar outra pessoa para ver qual será a minha reação, depois mato o Samir. Por enquanto estou investigando os motivos da sua visita, eu não disse ainda, mas Samir é ex-namorado da minha esposa. Aliás, ex-namorado não, ex-amante, eles ficaram quando eu e ela resolvemos dar um tempo ele é nosso padrinho de casamento e arranjou esse trabalho aqui para mim.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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