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Como age o estelionatário sedutor?

Como age o estelionatário sedutor?

Eles são falsários, pilantras, bandidos, criminosos como os demais ao pé da lei, mas a diferença é que praticam a fraude com requinte sentimental. E, para tanto, se valem de uma lábia vigarista que impressiona, por vezes, os mais criativos roteiristas de cinema. 

Como age o estelionatário sedutor?
Como age o estelionatário sedutor?

 

Mas, no mundo real, no ambiente passional, os golpistas se envolvem nos problemas da vítima, e, ombro a ombro, colo a colo, choram com os fragilizados as lágrimas de sarcasmo.

Entre os casos comuns de estelionato, os de natureza passional guardam muitas semelhanças.

É como se fosse possível descrever o “perfil do falsário”, tantas as “coincidências” no modus operandi na hora de aplicar o golpe.

Por sinal, até na consequência os golpes com ingrediente passional apresentam elementos repetidos: o falsário identifica vítimas fragilizadas e, friamente, se coloca no lugar delas… Eles também mostram uma facilidade novelística em sofrer e, tentando como se igualar à vítima num primeiro instante, choram para elas seus próprios sofrimentos.

Ao final, a frágil passa a ser a ingênua dilacerada emocional (e, claro, financeiramente) pelo golpista.

‘Sentimental’

Promotor de Justiça na área criminal por 20 anos, o professor de Direito José Roberto Martins Segalla vai no ponto ao ser perguntado sobre o perfil, o modo de atuação do estelionatário.

“Ele é um ator espetacular e só consegue sucesso por estabelecer uma relação de sentimento com a vítima”.

Assim, o “bom de lábia”, comenta Segalla, age quase sempre em duas frentes: ou é o que atua com sentimento de piedade, o coitadinho, ou pela ganância.

“Ele tem no seu repertório emocional a arte de estabelecer relações com o dó, a caridade, a piedade ou, no outro sentido, pela gânancia. Ou seja, o estelionatário ou é o coitadinho ou é o esperto. Mas o ponto em comum desses tipos sentimentais é que ele sensibiliza fácil a vítima para ter vantagem”, descreve.

Segalla também situa aquele que atua sobre a vertente da esperteza.

“Ele enxerga com facilidade a vítima que tem o perfil de uma pessoa boa, ingênua por ser boazinha, sem maldade. Ele tira proveito fácil sobre esse tipo”, comenta. A questão crucial no comportamento do estelionatário sentimental, em sua visão, é que ele se “coloca na condição da vítima.

Ele é muito companheiro e compreensivo e, quando vê que sua lorota está gerando resultado, ele cria uma crise sua e chora no ombro da pessoa que está fragilizada. Ele se identifica e se iguala ao sofrimento da vítima”, acrescenta Segalla.

O promotor aposentado situa que a posição de desfaçatez do golpista por vezes permanece até no Judiciário. “E o juiz se vê em dificuldade em condenar muitos deles porque a vítima lhe confere o acesso a tanta coisa que o falsário usa isso a favor dele e diz, ainda, pasme, que está sendo vítima de vingança da então amada. Fica uma versão de que ele teve dinheiro, carro, ou seja bens, porque a vítima quis lhe dar, consentiu. Exceto nos casos em que o estelionato é repetido, essa quadro passa a gerar certa dificuldade para que se prove alguma coisa, porque ele é sempre o coitado e fica mais difícil pegá-lo”, observa.

José Roberto Segalla finaliza: “as vítimas desses casos confiam demais, caem com muita facilidade e não observam nada sobre com quem estão lidando. Não verificam referências, endereço, nada”.

Sentidas

As vítimas, em geral, resistem em falar sobre o que passaram exatamente pela sequela mais forte: a desconfiança ao outro. Muitas contatadas ainda não se recuperaram.

Porto seguro

As histórias a seguir relatam situações reais, mas com preservação de identidade (os nomes são fictícios) e adaptação de locais.

O elo entre os casos, importante de ser enfatizado, foi advertido corajosamente por uma jovem de 25 anos que ainda sente os efeitos do desfalque emocional e financeiro: as principais características do estelionatário se repetem na forma de agir.

Patrícia – Tem 25 anos, foi casada por pouco mais de dois anos, nascida em uma cidade interiorana paulista, mudou-se para Bauru há poucos meses como fuga.

Ela não amava Pedro e, diz, teve coragem de se separar em nome da busca da felicidade. E aí é que surgiu a primeira oportunidade para ser vítima de golpe.

Assim que veio a Bauru para trabalhar, tentou esquecer o fracasso do casamento com dedicação exclusiva à loja. A única exceção era “jogar tempo fora” na Internet. E foi do ambiente eletrônico, do mundo virtual, que apareceu um jovem de 32 anos: alto, charmoso, de fala mansa, educado, atencioso, prestativo, assertivo. O Facebook permitiu contatos diários e o “estranho” passou a ser seu confidente e conselheiro.

Lá estava o golpista colocando em prática seus atributos de amigo de todas as horas. Fazia parte do enredo, de vez em quando, levantar a autoestima de Patrícia com elogios.

Patrícia, fragilizada pelo fim do casamento e a briga com os pais pela decisão de se separar, caiu rapidamente nos braços do ombro que lhe acolhia. Bastaram poucas semanas para Pedro passar a frequentar sua casa e, logo após, auxiliá-la inclusive em tarefas como o supermercado.

Pedro já era mais que “marido de aluguel”. E com acesso ao cartão de crédito bancário de Patrícia. Em quatro meses, Patrícia recebeu aviso de despejo pelo não pagamento de seu aluguel (Pedro apresentava recibos falsos de pagamento, após embolsar o dinheiro que pegava dela).

Concordou em adquirir em seu nome um veículo financiado para que o príncipe recuperasse a possibilidade de trabalhar em vendas (ele dizia ter sido demitido por perseguição em seu emprego anterior em outra cidade). E ainda vai se lembrar de Pedro pelos próximos dois anos de sua vida: a dívida com cartão de crédito deixada pelo golpista foi parcelada em 24 meses.

Alessandra – Ela recebeu o flerte de Roberto por mais de um mês, mas nunca deu bola porque ela tinha namorado. Trabalhavam na mesma região da cidade. Mas seu namoro “gorou” e Roberto, atento, não perdeu a oportunidade de ser a válvula de escape, o porto seguro. Alessandra foi rapidamente morar com o novo amor. O aluguel do apartamento foi assinado em seu nome porque o batalhador Roberto tentava se recuperar de desfalque sofrido com a “ex”.

Ardil, Roberto apresentou a Alessandra informações mentirosas sobre sua origem e seus pertences. Na lista havia apartamento no Guarujá, um terreno em Sorocaba, dois carros – um que havia ficado com um irmão em dificuldades, em outra cidade e outro que fora recolhido pela malvadeza da “ex”.

Dessa “relação”, em menos de um ano Alessandra abriu uma empresa prestadora de serviços para Roberto voltar a  trabalhar, deu seu carro usado no financiamento de um novo (para o uso de seu novo amor), franqueou senha e controle de sua conta corrente e renovou o guarda roupa do companheiro. E tem mais: a reserva de R$ 50 mil na poupança sumiu, desapareceu. Com o cartão em mãos, ele fez a festa.

Roberto foi tão eficiente em sua elaborada ação golpista que ainda conseguiu emprestar dinheiro de um parente de Alessandra e era adorado por todos da família.

Roberto sumiu do mapa quando as faturas decorrentes do golpe não puderam mais ser escondidas e Alessandra se viu como devedora em vários estabelecimentos.

O estelionatário desapareceu e, agora, Alessandra descobriu que ele já havia praticado o mesmo golpe com outras mulheres, inclusive em outros estados.

Detalhe: soube que Roberto já está com página nova no Facebook, com outro nome, endereço e até foto com novas posses. Afinal, a “fila anda” também no golpe.

Ana Maria – A história dela e Murilo tem os mesmos ingredientes de sedução e envolvimento emocional que os casos anteriores descritos, o que autoriza ir direto ao resultado do golpe.

A “novidade” seria que ela largou o casamento já em crise para viver o novo amor que conhecera via Internet.  Em 90 dias, Murilo fez desfalque que Ana Maria ainda vai continuar pagando pelos anos. Ele comprou TV nova, fez financiamento de veículo, atualizou seu guarda roupa, fez retiradas na poupança e esbanjou em viagem à Capital, onde alegou precisar ir, às pressas, para receber um bom dinheiro de uma venda bem sucedida que havia fechado. Claro, ele levou à viagem o cartão de crédito de Ana. Apaixonada, mesmo com as evidências do golpe em andamento, ela ainda teve dó de Murilo.

Ana, totalmente envolvida, emprestou algum dinheiro para o “coitado” se livrar da maldição goiana. Ana só caiu em si quando, quase oito meses depois de conhecer seu príncipe, resolveu entender porque sua conta estava sempre no vermelho.

Detalhe: para afastar a presença do “ex” de Ana, Murilo criou mensagens eletrônicas de ameaça contra ele. Ela ficou morrendo de raiva do ciúme do “ex” com o “amor de sua vida”. Ninguém sabe, ninguém mais viu Murilo. Se alguém tiver alguma pista, avise a polícia. Seu nome verdadeiro é longo: Larápio Golpista Cruel Caridoso de Dó.

Vítimas e a ‘desconfiança crônica’

O “artista da trapaça” é objeto frequente, e certo, de consultórios de psicólogos e, independentemente dos tipos que envolvem o golpista, os terapeutas apontam que a personalidade antissocial sempre estará manifesta nas ações de roubar, enganar, ludibriar.

O vigarista, pasme, também consegue êxito sobre pessoas tidas como experientes e seguras, embora suas vítimas prediletas, escolhidas com sagaz observação, seja de quem enfrenta problemas em seus relacionamentos ou esteja sofrendo com perdas. O estelionatário, mesmo leigo em ciências como a sociologia, psicologia, ou questões comportamentais do ser humano, é uma espécie de autodidata em observação do “coração”.

Ele, contam os especialistas, demonstram habilidade certeira em localizar pessoas maltratadas, deprimidas e que estão sofrendo. Para a terapeuta cognitiva-comportamental Mauricéia Quinhoneiro, independente dos motivos que levaram à trapaça e prejuízos, é preciso reforçar que a vítima pode desenvolver depressão e uma desconfiança crônica em relação a tudo e a todos.

Ao definir como age e pensa o falsário cruel, ela descreve que “o estelionatário normalmente apresenta o que chamamos de transtorno de personalidade antissocial, mais comumente conhecido como sociopatia”.

Ou seja, tais indivíduos tendem a apresentar um padrão invasivo de desrespeito e violação aos direitos dos outros, fracassam em conformar-se com as normas sociais com relação a comportamentos legais e mostram propensão para enganar, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer.

“Também demonstram irresponsabilidade consistente e repetido fracasso em manter um trabalho e de honrar obrigações financeiras. Tendem a ser frios, indiferentes e a não apresentar qualquer remorso por ter ferido, maltratado, enganado ou roubado alguém”, complementa.

‘Problema social’?

O curioso na abordagem da terapeuta é que alguns desses sociopatas ainda se consideram vítimas da sociedade por, por exemplo, terem sofrido abusos ou maus tratos.

“Em geral essas pessoas veem a si mesmas como independentes e fortes. E, por se acharem vítimas da sociedade, se veem no direito de fazer o mesmo com os outros. Outros adotam mesmo a premissa de que numa sociedade injusta o mais forte tem o direito de engolir o mais fraco”, lança.

A visão do estelionatário sobre a vítima pode ser cruel tal qual sua frieza na prática do golpe. Ou as demais pessoas podem ser vistas pelo estelionatário como potenciais exploradores ou, por serem fracos e vulneráveis, merecem ser vítimas.

Crime do camaleão

O estelionato talvez seja o crime que tem o código mais conhecido nas ruas. O famoso 171, artigo do Código Penal (CP) que o identifica como crime doloso de natureza patrimonial realizado com o emprego de fraude. O advogado e professor de Direito Cláudio Bahia explica que o agente criminoso se vale do engano ou se serve deste para que a vítima, sem a adequada reflexão, se deixe dilapidar em seu âmbito patrimonial.

Conforme o operador do Direito, o golpista, “pelo emprego de fraude coloca a vítima em situação de erro ou nela a mantém, de modo a obter vantagem ilícita, prejudicando-a, em seu patrimônio”.

O vocábulo stellio é derivado do latim e significa camaleão. A vítima do estelionato deve ser capaz. Se for incapaz, o crime será o do artigo 173 do CP.

A pena para o estelionato praticado contra capaz é de um a cinco anos de reclusão, com multa. “Do artigo 171: obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento”.

Bahia se atenta para uma particularidade na aplicação do crime de estelionato. Ele contesta a rejeição ao crime quando é empregada a tese, pelo larápio, de consentimento da vítima para a transferência de bens ou valores.

“Respeitando posições em sentido contrário, entendo que a conduta deve ser enquadrada como de estelionato, eis que presentes todos os elementos de sua caracterização, sobretudo no que diz respeito ao dolo de enganar a vítima ilicitamente para obter vantagem patrimonial da mesma. Nem se diga que a ação da vítima é consentida, haja vista que o verdadeiro consentimento só se mostra apto para produzir efeitos jurídicos quando baseado sobre informações idôneas, verdadeiras e não sobre ilusões, mentiras e enganações”, aborda.Por outro lado, Bahia sustenta que o Judiciário tem reprimido mesmo essa tentativa do farsante porque não fazê-lo seria estimular a proliferação desta espécie de malfeitor e de outros crimes de maior intensidade, como violência contra a mulher.

“A personalidade antissocial manifesta atacará, roubará e enganará os outros abertamente. O tipo mais sutil, também conhecido como ‘artista da trapaça’ ou estelionatários, tentará ludibriar os outros por meio de uma hábil e sutil manipulação. Esses trapaceiros se esmeram continuamente na arte da sedução e tornam-se expert neste oficio. Como bons predadores, estudam muito bem o ambiente e tendem a ser certeiros nos seus ataques”, elenca Quinhoneiro.

Acaso, armadilhas e ‘boa vontade perigosa’ fazem parte do ‘roteiro’ 

Pessoas que foram vítimas da ação de estelionatários tendem a assumir a culpa total pelo infortúnio o que resulta também em grandes prejuízos emocionais. Este é um grande erro de julgamento, estabelece a terapeuta Mauricéia Quinhoneiro.

Ela discute a questão a partir de raciocínio de Leonard Mlodinow, no best-seller “O andar do bêbado, como o acaso determina nossas vidas”. “Muitas coisas não poderiam ser evitadas porque simplesmente não poderiam ser previstas”, diz a frase.

“Isso demonstra que o controle absoluto é uma grande ilusão. Somos todos vulneráveis e armadilhas existem por toda parte.”

De outro lado, é preciso observar que, por medo e vergonha, muitas das vítimas preferem não procurar ajuda, pois temem as criticas e possíveis chacotas.

“É muito importante que as vítimas saibam que não estão sozinhas”, orienta.

Quinhoneiro não exclui nem os psicólogos da clientela dos estelionatários. “Até nós psicólogos que, a principio, deveríamos dominar a arte de identificar trapaceiros e estelionatários, podemos nos tornar alvos preferidos de muitos golpistas.

‘Problema social’?

O livro ‘Mentiras no Divã’, Irvin D. Yalom (mesmo autor de “Quando Nietzche chorou”) conta estórias que, embora fictícias, representam parte da realidade de muitos consultórios”, cita.

Outro ingrediente passível de transformar pessoas boas em vítimas é o espírito humanitário e o sentido de colaboração. É a chamada “boa vontade perigosa”, adverte a terapeuta. Mas os elementos mais comuns da vulnerabilidade acabam, em geral, caindo sobre casos que contam com ingredientes como “vaidade, arrogância e ambição desmedida”.

De outra sorte, é preciso atentar para desenvolvimento de depressão e desconfiança crônicas que podem advir no pós-trauma.

“Não há possibilidade de estabelecer futuros vínculos construtivos se não houver confiança”. avisa Quinhoneiro. Ela acrescenta, no entanto, que não é saudável negar sentimentos ruins após a rasteira, tais como raiva, tristeza, medo e frustração.

“A ditatura da felicidade, muitas vezes divulgada por alguns textos de autoajuda, tende a estimular a repressão de pensamentos e sentimentos negativos”, acentua.

Uma boa alternativa, na visão da terapeuta, é permitir-se um tempo para elaborar os traumas e quiçá transformá-lo num rico repertório de recursos de enfrentamento.

“Nesta fase, o apoio persistente dos amigos, familiares e pessoas queridas é fundamental. Uma ótima oportunidade para a pessoa redescobrir que existe gente boa nesse mundo e que não está abandonada”, pontua Quinhoneiro.

Pra finalizar, na ausência de pessoas queridas ou disponíveis para apoiar, a psicoterapia torna-se imprescindível. “Mobilizada pelos sentimentos conflitivos, a pessoa fica sem recursos emocionais para elaborar e superar sozinha todo o trauma vivenciado”, conclui.

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