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Coluna do Edson Andrade – Versos do cotidiano musical

Coluna do Edson Andrade – Versos do cotidiano musical

“Lavar roupa todo dia/ que agonia…”. Na “Juventude Transviada” de Luiz Melodia, são os versos imortais da canção que advertia: “Uma mulher não deve vacilar.” E nesse diapasão, o cancioneiro da gloriosa Música Popular Brasileira – imortal! – revela o cotidiano da vida humana nacional, com repercussões planetárias.

                        “Naquela mesa ele contava histórias/ que hoje, na memória/ eu guardo e sei de cor… E nos seus olhos era tanto brilho/ que mais que seu filho/ eu fiquei seu fã.” A canção de Nelson Gonçalves e Raphael Rabello, poema de doer uma saudade de pai, tem a marca quase percussiva de um bandolim, magnetizado pela melodia na voz grave e sonora do saudoso intérprete.

                        Bem hajam todas as palavras de amor das canções de tantos os que já não cantam. Como em Fascinação (1905), versão de “Fascination” – por Dick Manning, composta pelo francês Dante Pilade Fermo Marchetti, com letra original por Maurice de Féraudy –  interpretação magistral de Nat King Cole e pelo maestro Paul Mauriat. A versão poética tem a assinatura de Armando Louzada. Elis Regina interpretava essa valsa com primorosa sensibilidade. “E no teu olhar/tonto de emoção/com sofreguidão mil venturas previ. O teu corpo é luz, sedução/ Poema divino cheio de esplendor…” A métrica possibilita o ritmo em valsa, versos escandidos à perfeição para o resultado valsa e sonho.

                        O Poetinha Vinícius de Moraes deixou a carreira diplomática para tomar whisky com amigos e enamorar-se de mulheres e versos múltiplos. Nas horas vagas, produzia letras e sonetos de profunda inspiração poética. Em parceria com o maestro Antônio Carlos Jobim, criou “Eu sei que vou te amar”: “Eu sei que vou sofrer/ a eterna desventura de viver/ A espera de viver ao lado teu/ Por toda a minha vida.” Ao sopro derradeiro da canção, sob acordes do indefectível piano de Tom Jobim, Vinícius declamava seu Soneto da Fidelidade: “… Eu possa me dizer do amor (que tive)/ Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure.”

                        Excetuando as equivocadas preferências políticas e o acovardamento em anos de plumbum, Roberto Carlos produziu – não raro em parceria com Erasmo Carlos – e já não produzem mais – uma obra musical insuperável. Seus poemas merecem Prêmio Nobel de Literatura, vastidão e profundidade da obra prolífica. E sua inspiração beira a melifluidade das melhores imagens: “ E na grandeza desse instante/ o amor cavalga sem saber/ Que na beleza dessa hora/ O sol espera pra nascer.”

                        Não pretendo humilhar a pobreza dos ritmos e simulacros de canções, da atualidade. Não esgrimirei Djavan, Caetano Veloso e Chico Buarque. Heitor Villa Lobos, Pixinguinha, Ary Barroso – indicado ao Oscar de Melhor Canção Original (canção Rio de Janeiro, do filme “Brasil”). Sua “Aquarela do Brasil”, reconhecida internacionalmente, é samba-exaltação ao país grande e bobo que hoje veste faixa presidencial em cérebro despojado de necessários neurônios. Cartola, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Luiz Gonzaga, Gonzaguinha, Baden Powell, Gilberto Gil, Mílton Nascimento, Alceu Valença, Toquinho…

                     Empunho meu violão para, em notas limitadas de um virtuosismo que não veio, cantar a riqueza do cancioneiro brasileiro. E fecho as janelas ou ligo Anísio Silva em altíssimos decibéis, por motivos óbvios: impedir que o lixo entre e resgatar a imagem de uma mãe, em cuja saudade revivo e reafirmo todo o meu amor, porque ela, além de amar oito filhos, também chorou suas saudades ao som antigo dos LPs que imortalizaram nossa melhor música popular.

O autor é escritor, professor, jornalista, radialista e advogado.

Edson Andrade
Edson Andrade

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