Casa das Apostas Online Betway

Últimas Notícias

SAIBA MAIS AQUI - FAÇA CLICK

Pessoas que moram sozinhas experimentam solidão acentuada na quarentena

Pessoas que moram sozinhas experimentam solidão acentuada na quarentena

Aprender a viver sozinha já era uma novidade para a produtora de som Fernanda Galetti. Aos 39 anos, ela sempre havia dividido o teto com alguém. Só saiu da casa da mãe quando se casou. Em dezembro, passados 17 anos de convívio, veio o divórcio e a mudança para um apartamento pequeno e de planta moderna, estilo studio, projetado para aqueles que optaram pela modalidade da moradia individual, ou que foram levados a essa situação. No Brasil, segundo dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 10,4 milhões de pessoas adotaram esse estilo de vida, o que dá quase 15% de todos os domicílios do país.

Pessoas que moram sozinhas experimentam solidão acentuada na quarentena
Pessoas que moram sozinhas experimentam solidão acentuada na quarentena

 

Quando ela começava a construir uma nova rotina, tudo mudou muito de repente: em 13 de março, a empresa em que trabalha optou pela adoção do teletrabalho e orientou os funcionários a aderir à quarentena – medida que, dias depois, foi instituída por prefeitos e governadores de diversas cidades e Estados brasileiros como forma de frear a velocidade de proliferação do novo coronavírus.

Na véspera de se completarem três meses em isolamento físico, o fim de semana de Fernanda foi tomado por crises de choro e o desejo de uma companhia, de um suporte. “Eu quis sair correndo para a rua, ir para um bar, conhecer pessoas, namorar… E o que eu vi foram notícias ruins; o que senti foi um abatimento profundo”, reconhece. A sensação de solidão, diz, é presente o tempo todo. “Eu me vejo um pouco enlouquecida, às vezes me pego dialogando comigo mesma”, confessa, rindo e completando que tem, sim, dias que são tranquilos, mas também aqueles que são especialmente difíceis.

Paradoxalmente, saber que é coletivo o sentimento de sofrimento causado por essa sensação de solidão e que mais pessoas estão passando por algo parecido traz alguma forma de conforto. É como se, de alguma maneira, “ao nos sentirmos solitários, entendêssemos que não estamos sozinhos nessa: estamos todos sob um tremendo estresse”, aponta a psiquiatra Vera Iaconelli.

Agrava a situação que, somando-se à crise de saúde pública, há também uma constante crise política, ao mesmo tempo em que se escancara a brutalidade da violência policial. “Precisamos entender que, neste momento, não dá para estar feliz o tempo todo. Você pode ter um dia bom, uma boa semana. Pode ter tido contato com alguma coisa que te traga um alento. Mas plenamente feliz, só se não entendeu nada”, observa. O sofrimento, portanto, é normal e esperado. “O que precisamos é diferenciar essa tristeza de um adoecimento”, completa a diretora do Instituto Gerar, especializado em psicanálise, perinatalidade e parentalidade.

A psicóloga clínica comportamental Maxleila Reis faz análise semelhante. “É normal, neste momento, que a gente não se sinta completamente bem, sem nenhum sentimento desagradável. Precisamos aprender a aceitar e a lidar com esses sentimentos e, ao mesmo tempo, manter ações congruentes com o que é importante para nós e que nos faz bem”, pondera.

Embora uma situação comum a pessoas de todo o mundo, o risco de algum comprometimento da saúde mental é aumentado naqueles que possuem diagnóstico prévio de algum tipo de síndrome ou transtorno psíquico. Nesse caso, é importante que amigos, familiares e que a própria pessoa se coloquem vigilantes, avaliam as estudiosas.

Diagnosticada com síndrome do pânico e no meio do tratamento psicoterapêutico e medicamentoso de uma depressão (atendimento que passou a ser feito virtualmente), Fernanda concorda que a pandemia pode, potencialmente, prejudicar seu quadro de saúde mental. Por isso se põe em alerta e vem reconstruindo uma rotina que permita apaziguar angústias tão comuns a este tempo. Atividades físicas, leitura e muitos encontros por videoconferência são algumas das soluções incorporadas ao cotidiano.

“Coloquei meio que uma obrigação a prática de exercícios físicos, passei a fazer alongamentos e a praticar aulas virtuais de tai chi chuan (arte marcial reconhecida também como uma forma de meditação em movimento)”, cita, adicionando que retomou o hábito de ler quadrinhos. Filmes, séries e videogame também são refúgio. E, agora, tem se aventurado também na cozinha. “Uma coisa que aconteceu agora e que tenho gostado muito é de trocar receitas com minha mãe, de aprender coisas novas com ela e ir testando no fogão”, diz.

Criar uma rotina é fundamental

Aventuras na cozinha têm sido um escape para o designer Pedro Ivo Almeida, 32. Ele também nunca havia morado sozinho. Neste ano, depois de terminar um namoro, na época do Carnaval, mudou-se, em março, para um apartamento para viver só. Ele é parte dos 48% de brasileiros que aderiram ao modo de vida por vontade própria, segundo dados de uma pesquisa do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) de 2017.

A independência e a sensação de liberdade, apontadas como qualidades da moradia individual por, respectivamente, 25% e 23% dos entrevistados no mencionado estudo, foi também uma motivação para Pedro Ivo Almeida. Mas, então, diante das limitações sociais impostas pela pandemia, medo, insegurança e solidão tornaram-se presentes. “No início foi muito duro, porque estava começando a criar minhas rotinas e entender como funcionava essa dinâmica, e logo veio o isolamento”, cita. De começo, choro e ansiedade eram elementos comuns a seus dias. “Ficava muito nervoso, primeiro pensando que ia passar logo e, depois, sem saber quando acabaria”, observa.

Para driblar o desconforto, o designer apostou nas experimentações gastronômicas. “Passei a cozinhar todos os dias e em todas as refeições”, conta. Exercícios físicos e cuidados com a decoração para a casa, que foi ganhando plantas e quadros, foram incluídos em seu dia a dia. “Além disso, não abandonei a terapia. Sinto que o trabalho manual, como um todo, mas principalmente cozinhando, e a criação de uma rotina me ajudaram”, sinaliza.

“Organizar a rotina e aprender a gerir o próprio tempo são construções que demandam um certo tempo, uma interiorização. E esse processo foi levado ao extremo com o surgimento da pandemia”, estabelece Vera Iaconelli. A psiquiatra lembra que morar sozinho não é sinônimo de uma vida solitária. Entretanto, devido ao isolamento físico, a sensação de solidão pode ser fazer mais presente para essas pessoas. Neste contexto, diz, é aconselhável um maior cuidado consigo mesmo para reduzir a chance de adoecer. Por isso, a construção de uma rotina é fundamental.

“O amanhã, o futuro nunca foram certos. O nosso cotidiano é que faz surgir uma crença de que as coisas estão garantidas. Mas, então, quando há um acontecimento que demonstra essa incerteza, como é o caso de uma emergência sanitária, nos sentimos inseguros e vulneráveis. Neste caso, é importante encontrar ferramentas para nos organizarmos. A pandemia vai acabar em algum momento. Temos que seguir o nosso dia a dia para chegar lá bem”, analisa Vera.

É importante, completa Maxleila Reis, identificar ações e situações que causam sensação de bem-estar e que cada um construa, mesmo em casa, uma rotina que respeite o seu próprio ritmo e que tenha presentes momentos de autocuidado. Ainda que por plataformas virtuais, interação social – “uma grande fonte de prazer, de acolhimento e de suporte emocional” – também é essencial.

Essa rotina, reforça Vera Iaconelli, não precisa ser igual à do outro. Ainda assim, “é preciso incluir no dia a dia horas de sono e atividades físicas”, elenca a psiquiatra, ressaltando que se deve evitar o consumo de álcool e de outras drogas. Estar em contato com outras pessoas regularmente, conversando por telefone ou por videoconferência com amigos e com familiares, também ajuda. “É uma saída a promoção de ações que nos façam sentirmos úteis, como ir ao supermercado para o vizinho idoso ou realizar coleta seletiva… Ações sociais e solidariedade fazem com que a gente se sinta bem”, observa.

A manutenção da higiene pessoal e da organização doméstica também é um fator para o bem-estar. “Por isso, agora, se fala tanto em ioga, meditação: são atividades em que paramos com as ruminações mentais e focamos no aqui e agora, cortando esse momento de ansiedade”, pontua Vera. Mas, se a pessoa se sente mal e não tem conseguido lidar com o sofrimento potencializado por este período, a psiquiatra lembra que é importante buscar a ajuda profissional. “Há muita oferta de atendimento a preços acessíveis e até gratuitos”, salienta.

Aviso

  • • Nossos editores/colunistas estão expressando suas opiniões sobre o tema proposto e esperamos que as conversas nos comentários de artigos do JORNAL MONTES CLAROS sejam respeitosas e construtivas.
  • • Os espaços de comentários em nossos artigos são destinados a discussões, debates sobre o tema e críticas de ideias, não as pessoas por trás delas. Ataques pessoais não serão tolerados de maneira nenhuma e nos damos ao direito de ocultar/excluir qualquer comentário ofensivo, difamatório, preconceituoso, calunioso ou de alguma forma prejudicial a terceiros, assim como textos de caráter promocional e comentários anônimos (sem nome completo e/ou e-mail válido)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *