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Panenka, o craque tcheco que criou a cavadinha

Imagine a cena: você é meio-campista da seleção de futebol de seu país, que nunca venceu um torneio continental. Seu time chegou à final e jogou contra um oponente fortíssimo, acostumado a grandes conquistas. Depois de noventa minutos de jogo e mais trinta de prorrogação, está tudo empatado em 2 x 2. A partida então vai para a disputa de pênaltis. Todos convertem, até que seu adversário chuta um para fora. E você – sim, você – tem que bater o último pênalti.

Como você chutaria? Forte e rasteiro no canto, com cuidado para não tirar demais e acertar a trave? Tentaria deslocar o goleiro, correndo o risco de ele cair para o lado certo? Ou procuraria acertar o ângulo, onde é praticamente indefensável, mas existe uma enorme chance de errar?

Para aumentar o drama, no gol está um goleiro que é uma verdadeira lenda. Considerado um dos melhores de todos os tempos, ele certamente é capaz de defender um chute que não seja perfeito.

O que você pensaria? Será que passaria pela sua cabeça a enorme responsabilidade de converter a cobrança que daria o título de campeão continental a sua pátria? Lembraria de seu pai, que te fez gostar de jogar bola, ou da sua mãe, irmãos e amigos, que sempre te incentivaram? Ou se esqueceria de tudo e apenas tentaria acertar o gol?

A bola já está na marca. O juiz apita. Você olha para o goleiro, corre e…

Pausa dramática. Antes de contar o fim da história, saiba que ela de fato aconteceu. Foi em 1976. Em uma Eurocopa disputada na antiga Iugoslávia, mais precisamente em Belgrado, atual capital da Sérvia. Na final estava a poderosa Alemanha Ocidental, cujo goleiro era o lendário Sepp Maier, que apenas dois anos antes tinha parado a “Laranja Mecânica” holandesa na final da Copa do Mundo. Sua adversária era a Tchecoslováquia, que nunca havia conseguido um título de expressão no futebol, mas que contava com um camisa 7 chamado Antonín Panenka – o cobrador do último pênalti.

Atleta do Bohemians Prague, um time médio da capital tcheca, ele era um meia habilidoso. E muito, muito corajoso. Patrik Schick pode ter feito um gol do meio de campo contra a Escócia na Euro 2020, algo que ninguém poderia apostar que essa jogada aconteceria. Mas não foi o primeiro tcheco a fazer uma jogada ousada na competição continental. Em 1976, Antonín Panenka assombrou o mundo ao bater o pênalti decisivo do campeonato com uma cavadinha.

A cavadinha, para quem por acaso não saiba, é a cobrança de pênalti na qual o batedor “cava” com o pé embaixo da bola, mandando um chute fraco, que descreve um arco, e entra no meio do gol. Para funcionar, é preciso que o goleiro se lance para um dos lados. Foi exatamente o que Sepp Maier fez. E a bola de Panenka entrou suavemente no meio do gol, dando o título de campeão da Europa à Tchecoslováquia.

 

Dizem que a sorte favorece os ousados, e isso realmente aconteceu com Panenka. Mas outra questão contribuiu e muito para o sucesso do engodo: o fato de nunca ter sido feito antes. Sim, até aquele dia, ninguém havia visto uma cobrança de penalidade como aquela. Nem mesmo Sepp Maier, que esperava tudo, menos essa jogada.

Para realizar tal feito, é fundamental que o jogador finja que vá bater forte no canto, para induzir o goleiro a pular. Nem sempre funciona. Neymar, ainda no Santos, perdeu um pênalti com cavadinha na final da Copa do Brasil 2010; Alexandre Pato desperdiçou um contra o Grêmio, eliminando o Corinthians da Copa do Brasil em 2013; e, no maior duelo de Minas, Montillo perdeu um jogando pelo Cruzeiro contra o arquirrival Atlético. Dentre os que acertaram, Djalminha era um especialista e é visto como uma referência até hoje.

Em nível mundial, a cavadinha também dá as caras. O uruguaio Sebastián “Loco” Abreu usou uma na Copa de 2010, contra Gana; Zinedine Zidane, o ícone francês, cobrou assim na final da Copa de 2006. Porém, na Europa, a jogada é conhecida por outro nome: Panenka, em homenagem ao talentoso e muito corajoso inventor.