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Leandro Heringer

Coluna de Leandro Heringer – Em nome da “ciência”

A contemporaneidade traz consigo situações interessantes. Em determinados momentos, como no início do século XXI, houve a convivência entre as diferenças. Após a Guerra Fria e antes do ataque às Torres Gêmeas, a concepção de que entre os extremos existiam infinitas possibilidades.

Após o fatídico 11 de setembro, o discurso de “Combate ao Mal” tornou-se forte. No Brasil, a versão “nós x eles” foi exaltada na primeira metade do século. Atualmente, toma-se a falta a respeito da “ciência”.  Aceita-se um pretenso discurso disfarçado de ciência ou é tachado de negacionista da ciência.

Contudo, essa tática moderna, época em que havia a percepção exclusiva de oposições e maniqueísmos, mostra-se contraditória. Como a modernidade foi historicamente. Primeiramente, porque não se usa algum conceito de ciência para definir a discussão. Tenta-se usar o senso comum para definir ciência. Sem método nem referência.

Dessa forma, perde-se a oportunidade de discussão e diálogo a respeito da finalidade da Ciência nos dias atuais. A mesma Ciência é relativizada de acordo com os objetivos, nem sempre declarados, dos discursos ou “narrativas” vigentes, inclusive no meio acadêmico.

Periódicos científicos são contaminados com “linhas editoriais invisíveis” em que há direcionamento a respeito do que pode ser publicado ou não. Muitas vezes, esquecendo que o diálogo e a contraposição são fundamentais para o crescimento do conhecimento científico.

A “ciência” passa a servir, portanto, a finalidades nem sempre confessáveis. Estudos nas áreas de ciências naturais, como a Biologia, servem para determinar a utilidade ou não de produtos como remédios e vacinas. Contudo, a mesma biologia é negada ao se falar em identitarismo. Passa-se a considerar a autoimagem.

Cotas são utilizadas com intuitos sociais. As cotas raciais consideram fatores externos como um estereótipo de determinada raça. Não vale, portanto, apresentar exame de DNA nem afirmar que se identifica com determinada cultura. Afinal, o objetivo é enfrentar a questão do racismo, que é aparente.

Em casos de ideologia de gênero, a situação é oposta. Fatores biológicos determinantes e irreversíveis são desconsiderados. O objetivo é levar para o indivíduo uma conformidade de como ele se percebe. Não interesse o externo nem a constituição cromossômica.

O sofismo é um conceito filosófico que está relacionado com a lógica, a argumentação e os tipos de raciocínio. Trata-se de um erro, uma argumentação falsa que é cometida intencionalmente com o intuito de persuadir seu interlocutor. Assim, ele gera uma ilusão de verdade. Há, portanto, a apropriação, dependendo do que se quer defender, de um discurso sofista a respeito da ciência.

Ao abordar temas sociais tão importantes quanto saúde e políticas públicas com o tema “ciência” corre-se o risco de, ao mesmo tempo, deslegitimar tanto as políticas públicas quanto a ciência e cientistas.  Em tempos de crise de credibilidade em instituições, trazer nebulosidade à Ciência é preocupante. Método, rigor, diálogo, questionamentos e contraditório fazem parte do processo científico. Quem ganha com a banalização do termo?