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Montes Claros – Estudo revela vulnerabilidade do solo ao redor da Barragem de Juramento

Montes Claros – Estudo revela vulnerabilidade do solo ao redor da Barragem de Juramento

Perda de solo a cada hectare é próxima a 50 toneladas por ano, o que compromete o volume do reservatório. 

Montes Claros - Estudo revela vulnerabilidade do solo ao redor da Barragem de Juramento
Montes Claros – Estudo revela vulnerabilidade do solo ao redor da Barragem de Juramento

 

Responsável pelo abastecimento de 67% da população de Montes Claros, a área de drenagem da barragem do Rio Juramento (afluente do Rio Verde Grande) sofre com a perda média anual de 48 toneladas de solo por hectare. Acredita-se que uma boa parte do material removido (camada superficial) pela enxurrada é transportado e adicionado para altitudes inferiores da bacia. Também, uma boa parte dos sedimentos transportados alcança o reservatório da barragem, intensificando o assoreamento do mesmo. O cenário potencializa o drama do município, que já acumula sérias consequências, como o racionamento de água por causa dos baixos índices pluviométricos nos últimos quatro anos.

Os dados fazem parte da dissertação do mestrado em Geografia, da Universidade Estadual de Montes Claros, produzida pelo aluno Willer Fagundes de Oliveira. Intitulado “Vulnerabilidade à Erosão Hídrica na Área de Drenagem da Barragem do Rio Juramento/MG”, o trabalho analisa a dinâmica do uso e ocupação do solo por meio de uma série temporal de imagens oriundas de sensores de satélites obtidas no intervalo de 30 anos (1985-2015). O estudo revela que, nos últimos dez anos analisados, as áreas antropizadas (alteradas) aumentaram 11,71% em detrimento dos espaços naturais. Num cenário mais recente (2015), as partes alteradas predominam com 56,87%, seguida por 41,79% de áreas naturais e 1,34% de solo exposto.

As áreas naturais são ocupadas por Matas Ciliares, Cerrado Rupestre, Cerrado Típico, Campo Cerrado e, principalmente, pela Floresta Estacional Decidual (Mata Seca). Já as porções antrópicas ao redor da Barragem são ocupadas pela Silvicultura (plantio de eucalipto) e por pastagens – em sua maioria sem o manejo adequado.

HÁ TRÊS DÉCADAS

A dissertação identifica, ainda, que a cultura do eucalipto está presente naquela região há mais de 30 anos e nas partes altas da bacia – ocupa 8.755,57 hectares, ou seja, 24,53% da área total da bacia. Embora algumas plantações encontram-se nas proximidades das nascentes dos principais rios que abastecem a barragem, as mesmas apresentam baixo risco de erosão. “As áreas ocupadas pela cultura do eucalipto encontram-se em relevo plano, onde os solos são mais resistentes à erosão, o manejo da cultura é adequado e há práticas conservacionistas do solo. Em tais locais o risco de erosão laminar é baixo, sendo que, em alguns casos, as perdas não superam a formação de solo”.

O fator agravante está nas áreas de pastagem, onde as perdas de solo, em alguns casos, superam mais que dez vezes a formação – nesses pontos, o risco de erosão laminar se eleva significativamente. O autor explica que a cultura da pastagem tem se expandido nos locais mais vulneráveis em termos de erosão. “Ela ocupam, em grande maioria, as partes acidentadas da bacia, onde os solos são mais vulneráveis à erosão e as práticas conservacionistas são praticamente desconsideradas”. Tais áreas aumentaram 24,1% nos últimos 10 anos, ocupando 30,7% da área total da bacia.

A dissertação revela que o manejo inadequado e intenso deixa o solo extremamente fragilizado e com a resistência baixa, o que contribui para o assoreamento dos cursos d’água e, consequentemente, do reservatório.

A pesquisa também caracterizou o clima, a hidrografia, as classes de solos e a vegetação predominante da bacia em maior nível de detalhamento cartográfico. Isso foi realizado por meio do uso das ferramentas (imagens, softwares e aplicativos de smartphone) geotecnológicas livres, ou seja, sem custo.

Dessa maneira, o orientador do estudo, professor doutor Marcos Esdras Leite, do Departamento de Geociências da Unimontes, destaca que a pesquisa aponta nitidamente que, com a retirada da cobertura vegetal e com o uso intenso do solo, principalmente para pastagem, houve aumento da degradação ambiental, “notadamente da erosão”. Segundo ele, “isso interfere na oferta de água para Montes Claros, haja vista que diminuiu a capacidade de armazenamento no reservatório”.

SOLUÇÃO

O autor do estudo ressalta que não basta apenas preservar o entorno do reservatório da barragem, pois essa medida não é suficiente para interceptar as descargas sólidas (sedimentos) transportadas pelos rios e/ou córregos à montante do mesmo. É necessário adotar medidas que mitigam o processo erosivo e favoreçam o processo infiltração de água no solo, o armazenamento e, consequentemente, a produção de água na área de contribuição (ou drenagem) do reservatório.

A pesquisa sugere que seja feita uma batimetria anual, que é a medição exata da profundidade em vários pontos da barragem para precisar o grau de comprometimento da capacidade de água.

O estudo também aponta algumas medidas que podem favorecer o processo de infiltração, armazenamento e produção de água. Tais medidas podem ser por meio do apoio técnico e financeiro que incentivam a execução de ações conservacionistas, tais como: construções de terraços, plantio em nível, construções de bacias de detenção (barraginha), readequação do sistema de drenagem das estradas vicinais e da rodovia MG 308, recuperação e proteção das APP nos entornos dos córregos e nascentes, entre outras.