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Coluna do Dr. Marcelo Freitas – O “Dilema do Prisioneiro” e as malas de Geddel

Coluna do Dr. Marcelo Freitas – O “Dilema do Prisioneiro” e as malas de Geddel

Acabo de ver pelos jornais que o ex-ministro Geddel Vieira Lima, do PMDB, foi preso preventivamente, em Salvador, na manhã da última sexta-feira. A prisão ocorre três dias após a Polícia Federal ter apreendido R$ 51 milhões em uma espécie de “bunker”, utilizado pelo peemedebista. As impressões digitais coletadas no imóvel não deixam dúvidas, não obstante a presunção de inocência, aqui respeitada.

As investigações efetivadas até agora evidenciam que o peemedebista, valendo-se de seu cargo na Caixa Econômica Federal, “agia internamente, de forma orquestrada”, para beneficiar empresas com liberações de créditos dentro de sua diretoria, além de fornecer informações privilegiadas para os outros integrantes da organização criminosa composta, dentre outros, pelo deputado cassado Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro, também preso.

De fato, as malas recheadas de dinheiro fizeram pipocar nas redes sociais uma série de brincadeiras diversas, não obstante a gravidade da situação. Brasileiro é assim mesmo! Gosta de fazer piadas até mesmo nos momentos de desgraça! Uma delas, comparava as malas de Geddel à “necessaire”, uma espécie de bolsa pequena, arrastada às pressas pelo também ex-deputado federal Rocha Loures. Os escândalos são tantos que uns, muito graves, são sucedidos por outros, mais graves ainda.

É preciso deixar claro que os R$ 51 milhões de reais, apresentados de maneira só antes vista nos grandes cartéis de drogas do mundo, representa apenas uma pequena “gota” no grande “mar de lamas” chamado corrupção, que cada vez mais gera miséria ao sofrido povo brasileiro. Caro leitor, o Brasil perde ao ano quase R$ 800 bilhões de reais exclusivamente por conta da corrupção! Por mais que a lava jato tenha descortinado um novo olhar social, ainda – enquanto nação – não percebemos os desvios que acontecem ao nosso redor. Somos um dos países menos transparentes do mundo nesse aspecto (percepção da corrupção). Aliás, chamo a atenção para o filme, recém lançado, “Polícia Federal – a Lei é para todos!”, onde essas questões são muito bem abordadas. Vale a pena ver!

Com Geddel preso, que fique claro, algo mais ainda pode acontecer, mormente em situações em que, sabemos todos, ele não agia sozinho! Chamo a atenção neste breve espaço, de maneira muito superficial, para aquilo que, na “teoria dos jogos”, se chama de “dilema do prisioneiro”.

O “dilema do prisioneiro” é um jogo bastante conhecido entre os estudiosos do direito penal que representa bem o impasse entre cooperar e trair. Resumidamente, a história é a seguinte. Dois suspeitos, A e B, são presos pela Polícia (Federal). A polícia, sem provas suficientes para os condenar, então separa os prisioneiros em salas diferentes e oferece a ambos o mesmo acordo:

1. Se um dos prisioneiros confessar (trair o outro) e o outro permanecer em silêncio, o que confessou sai livre enquanto o cúmplice silencioso cumpre 10 anos de “cana”.

2. Se ambos ficarem em silêncio (colaborarem um com ou outro), a polícia só pode conseguir condená-los a 1 ano cada um.

3. Se ambos confessarem (traírem o comparsa), cada um leva 5 anos de cadeia.

Cada prisioneiro faz a decisão sem saber a escolha do outro – eles não podem conversar. Como o prisioneiro deve reagir? Existe alguma decisão racional a tomar? Qual seria a sua decisão, caro leitor?

Trouxe esse tema à discussão para que todos tenham a noção de como as prisões ganham relevância em situações como a de Geddel. Não sem razão, assim, as defesas técnicas buscam costurar mecanismos para revogar, de forma cada vez mais célere, o dilema a ser enfrentado pelo prisioneiro. Antes, somente suportado por minorias excluídas, eleitas pelo sistema para serem penalizadas! Eis os tempos!

O leitor mais atento vai observar que o ex-ministro do PT, Antonio Palocci, conforme amplamente noticiado pela imprensa, parece ter adotado, ante o “dilema do prisioneiro”, a posição de, no cárcere, delatar os seus antigos companheiros de partido.

É momento assim de transparência! É preciso que deixemos nossas bandeiras partidárias de lado e façamos a escolha do que realmente representa o melhor para nosso país. Não dá mais para apoiar corruptos, bandidos safados que, dia após dia, com ou sem lava jato, roubam dinheiro do povo, gerando cada vez mais miséria, “prantos e ranger de dentes”! Sejamos sensatos! Nas palavras do Juiz Sérgio Moro, “a corrupção não tem cores partidárias. Não é monopólio de agremiações políticas ou governos específicos. Combatê-la deve ser bandeira da esquerda e da direita.” É dever de cada um de nós!

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia.

 

Dr. Marcelo Eduardo Freitas
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