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Coluna do Adilson Cardoso – Marcas Confusas

Coluna do Adilson Cardoso – Marcas Confusas

Há pouco mais de dois meses, mudou-se para o apartamento ao lado, Hadásio e sua esposa Fernanda. Ele tem trinta e quatro anos, ela três a menos. Oriundos de uma cidade do Rio Grande do Sul, se não me engano, Guaíba. Vivem do aluguel de imóveis, duas salas em edifício do centro daquela cidade, uma casa de eventos e um kitnet. São silenciosos a maior parte do tempo, exceto quanto misturam chimarrão com vodka, o efeito altera suas vozes e a força dos seus pisados, seu Edmar do duzentos e doze avisou ao Sindico que se providencias não fossem tomadas subiria com seu revolver trinta e oito e os faria calar. Mas o Sindico não tinha o que temer já que o aposentado do INSS além de não possuir arma alguma, também fazia sempre o mesmo discurso, outro dia foi em reunião na escola do neto que cursa o ensino médio.

 — Senhores pais e responsáveis é momento de nos unirmos para evitar que os vendedores de drogas aliciem nossos filhos! Apesar de tomarmos todas as providências quanto educadores, lá fora dos muros da escola não podemos olhar! – Falou a diretora.

— Se um safado oferecer drogas ao meu neto eu venho com meu revolver e o faço engolir! – Disse seu Edmar sem ser levado a sério pelos outros participantes da reunião.

Outro dia eu vinha subindo com a distração de sempre, mergulhado em uma leitura de Rubem Fonseca, encontrei a Fernanda que descia apressada, carregava uma bolsa média com visíveis sinais de que o conteúdo fora colocado sem a devida organização, disse um oi tacanho e passou, virei o rosto para olhar sua bunda, mas o que chamou atenção foi uma mancha de sangue no antebraço que não apontava lesão, ou seja, o sangue não era daquela região. Havia um carro esperando por ela, talvez fosse um Uber já que o motorista tratara com estrema formalidade, ela olhou para mim e para o alto, rumo a sua janela. O Hadasio era um sujeito insólito, apesar de sermos próximos ali de portas, jamais se dirigiu a mim para um papo ou simples cumprimento, diferente dela que ficara amiga da minha esposa a ponto de confidenciar que o marido não lhe satisfazia na cama. Assim que eles começavam o ritual do amor, ela o substituía mentalmente por um cara que a estuprara na adolescência, mesmo passado tantos anos ela ainda se lembrava como se fosse naquele momento.  No dia jogava vôlei como atividade de Educação Física, ela gosta de elogiar-se, então dissera que tinha as pernas muito grossas e que atraia os homens, gostava quando o professor encarava suas partes intimas se revelando no short apertado. Após a aula tomara um banho para ir ao centro de pesquisas históricas, estava em uma equipe que falaria sobre a “Farroupilha” era a nota do bimestre. Mas ela paquerava em segredo o filho do dono da Lanchonete da quadra, Samuel, cinco anos mais velho que ela, não escondia que se masturbava vendo as meninas na aula de natação. Aproveitando que os outros foram embora os dois ficaram a vontade e quando se deram por si era meio dia, correndo contra o tempo Fernanda atravessara  um semáforo fechado para ela, quando foi levemente tocada por um Furgão de uma rádio local. Desculpas recíprocas aceitara carona para ir ao seu destino, porém não chegaria antes das dezessete horas, sob  ardorosa preocupação dos pais. Além dos abusos ela fora obrigada a tomar chimarrão com vodka e guardar o segredo que se partiu no seu aniversário de dezoito anos, após um porre na casa de uma prima. Parei por alguns minutos em frente ao  trezentos e doze, a fuga repentina de Fernanda talvez fosse indicio de crime, lembrei-me do caso Elize Matsunaga, para esquartejar alguém não precisa de muito espaço. Tive vontade de encostar o olho na fechadura, mas não queria ser surpreendido por um morador e ter que prestar esclarecimentos ao Sindicato. Minha mulher após contar tudo aquilo me intimou com um sorriso de dubiedade; “Não quero você de tró-ló-ló, com ela ouviu? é boazinha, mas o rabo é quente!” entendi, porém me fiz de desentendido. Só iria suportar aquela aflição até às quinze horas, um minuto depois chamaria o Sindico para confessar minhas suspeitas. Fui até a janela e olhei o pátio silencioso, um pedaço de papelão de supermercado estava ao lado do meu carro, algum porco queria deixar-me com a culpa. Abri um vinho quente que estava atrás do litro de conhaque e virei apressado o copo na boca, senti uma leve mudança interior e tomei outro. No quarto copo abri a porta decidido a acabar com o mistério, se a Fernanda realmente houvesse matado o marido eu queria ser o primeiro a ser entrevistado pela televisão, minha versão seria sucinta; “Eu estava chegando em casa lendo o Caso Morel de Rubem Fonseca e me deparei com ela, olhos esbugalhados e babugem nos cantos da boca, parecia um cão raivoso, carregava uma bolsa grande do lado esquerdo, provavelmente com o cadáver do Hadásio e na direita uma espada de samurai pingando sangue!” Serei famoso. Enquanto a fantasia alimentada pelo vinho vagava pela minha cabeça, sai colocar o plano em pratica, quando abri a porta, Fernanda e o Marido chegavam de mãos dadas, ele como sempre mal-educado não disse nada, ela cumprimentou-me secamente, estava com uma calça jeans muito justa e uma blusa amarela com a estampa de Bob Sponja, olhei diretamente onde ela dissera a minha esposa que o professor de Educação Física a olhava, de costas vi que no seu antebraço tinha uma tatuagem vermelha, o desenho era indefinido, parecia uma mancha de sangue.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso