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Coluna do Adilson Cardoso – Olho por olho (Memória de um delinquente)

Coluna do Adilson Cardoso – Olho por olho (Memória de um delinquente)

Acordei com o “Berrado”  me cutucando, estamos nus, algemados os pés e as mãos um no outro. Ele tem  um corte profundo na testa, escorre  sangue sobre  seu olho esquerdo que  está  com um enorme hematoma e não se abre. Seus lábios estão inchados, na boca entreaberta  se vê  pedaços de dentes se despontando, ele tenta  dizer alguma coisa, mas eu não consigo decodificar seus ruídos, um chiado ofegante vem  de dentro dele com insuportável cheiro de sangue. Mas parte deste odor se exala de mim também, pois ao menor movimento de inspiração do ar, sinto como se as costelas estivessem soltas dentro da caixa torácica, furando outros órgãos. Outra  dor angustiante na minha mão direita denuncia  o  polegar  partido ao meio, a  ponta  do osso está  exposta feito uma pequena lança. Ao passar  á  língua sobre os dentes, noto que alguns estão   balançando, mas daqui a pouco engulo ou cuspo todos. Voltei  ao rosto do Berrado  tragicamente irreconhecível, ele está suando,  inquieto com seus chiados ainda mais ofegantes,  os gestos são clamores  por ajuda. Eu não posso fazer nada, além de sentir minhas próprias dores. Foda-se, ele sabia que poderia dar merda, já recebeu parte da grana. Estamos numa pequena sala, a  porta é de madeira pintada de amarelo Creme, do lado direito há um apagador antigo, próximo dali  um armário velho de aço,  cinzento com  duas portas, uma delas está aberta com varias papéis e livros de capas duras, distribuídos desordenadamente entre quatro prateleiras, tem também uma sacola plástica azul com alguma coisa dentro, mas não consigo identificar o que seja, parece fita adesiva. As dores estão aumentando, o chão está muito frio, do lado daquele armário há outro menor, também com duas portas e um pequeno cadeado fechando.  Uma mesa redonda, uma cadeira preta e nós dois aqui no chão, isto é o que tem aqui dentro.  Longe de tudo, pois não ouço buzinas  nem vozes, apenas um Bem-Te-Vi  cantando  de vez em quando, se eu soubesse falar a língua dele pediria para buscar ajuda. Berrado começou a gemer, esta suando mais e  urinando  sangue. Agora é sangue pela testa e pelo pau,  filho da puta não se toca que está respingando em mim, mas estamos atrelados um no outro, não há outra saída. Seu olho direito se arregalou, parece que vai entrar em convulsão, o rosto está tremendo, prefiro nem pensar como estou visivelmente. Talvez parte do seu pavor se deva por firmar sua única vista na minha figura aterradora, foda-se, feche o outro olho também. Uma vez ouvi que quando se está perto da morte, sentimos um forte cheiro de rosas, então a nossa deve estar longe, aqui fede pra caralho. Arrombaram a porta, vou ficar de olhos fechados, assim eles desistem de atirar, ai meu Deus, são muitos, estão atirando em Berrado, estou nadando em sangue. “Me dê o facão, este filha da puta matador de policia, vai morrer devagar!” Grita uma voz do meu lado.   Sinto um forte puxão suspendendo minha cabeça, me lembrei de quando era criança, adorava ver minha mãe matando a Galinha para o  almoço de domingo.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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