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Coluna do Edson Andrade – Mendigos à solta

Coluna do Edson Andrade – Mendigos à solta

Houve um tempo em que a cidade recebia forasteiros do interior do Estado da Bahia, assim como centenas de deportados de outras regiões de Minas Gerais. E não sabia como lidar com a horda de pedintes maltrapilhos os quais, não raro, traziam a tiracolo suas pobrezas e filhos. Os tempos mudaram, o país alcançou a sexta posição no ranking dos países mais ricos, reduziu o desemprego para 4,8 por cento, ensejo em que pairava nos ares azuis do Brasil alguma nesga de esperança verde de que teríamos, finalmente (!) as vias do desenvolvimento.

Novamente a bonança deu lugar à desesperança. Com ela, vieram os transeuntes de toda ordem, gente mergulhada em uma pobreza triste de se ver. E chegaram os andarilhos. E a cidade se vestiu de mantas sujas, abrigos improvisados de caixas de papelão e a aparência de muita fome nos olhares apagados dos brasileiros sem lar, sem emprego, sem norte, desavergonhadamente entregues ao pior destino: o da mendicância distante de qualquer projeto social e humanístico.

Com o calor abrasador chegaram aos montes e, silenciosamente, buscaram refúgio nas praças já entregues ao descaso, nesta nossa Montes Claros de raras belezas. E é verdade que enfearam a paisagem e constrangeram a cidade em reconstrução. As imagens desses seres humanos fazendo de logradouros públicos seus lares socaram nossas consciências, mas, em momento algum, nos sensibilizaram ao ponto de buscarmos, no conjunto da sociedade civil e organizada, as soluções para o abandono em que se encontram.

As reuniões se sucedem, mas não há respostas concretas do poder público. Em verdade, já se pretende bloquear a Praça da Matriz aos avanços daquela horda de miseráveis. E eis que já se planeja o advento da revitalização do local de importâncias ambiental e histórica, o mesmo logradouro que, tempos não longínquos, o Prefeito Athos Avelino entregou em cartão postal para os concidadãos. E a belíssima praça da Matriz foi abandonada pelos gestores públicos que o sucederam, atitude covarde de quem buscou eleições para locupletar seus egos, distanciados das reais necessidades do povo citadino.

Os mendigos e a terra arrasada lá estão para nos envergonhar. Banheiros a céu aberto ali foram erigidos e os nobres cidadãos não atravessam a praça tão logo surjam as primeiras estrelas. O medo toma lugar no logradouro dantes público e, eleições próximas, nossos governantes temem o clamor de um povo – também parasita de seus melhores sentimentos e gestos – cujas consequências poderiam inviabilizar candidaturas e projetos políticos.

Montes Claros voltou a sofrer. Não somente pela ausência de atitudes propositivas no sentido de melhorar a aparência urbana, mas pela visão de um país empobrecido, cujas testemunhas e vítimas aqui estão, no centro da cidade, em plena praça da Matriz para nos jogar na cara nossa pequenez, nossa covardia e nossa inútil arrogância face ao sofrimento maior de uma turba pacificada – ela também – pelo medo, pelo abandono e pela fome.

O autor é escritor, professor, jornalista, radialista e advogado.

 

Edson Andrade
Edson Andrade

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