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Coluna do Edson Andrade – Não deixe o velho entrar

Coluna do Edson Andrade – Não deixe o velho entrar

O violão plange acordes nostálgicos de uma canção de estilo country, autoria de Toby Keith, quando entra em ação o velho ator e diretor Clint Eastwood, 89 anos de idade. “Don’t let the old man in (…) He’s knocking on my door”. O velho bate à nossa porta e uma pergunta retórica se faz necessária: devemos deixar ao largo de nós o velho que venceu o tempo? Ou deixá-lo entrar em nossa (des)esperança?

É inapagável a imagem da velhinha vencida pela depressão e que, entre suspiros débeis, dizia: “estou boa é de morrer.” Não sabia ela que a aventura do envelhecer é um privilégio? Melhor resgatar Taiguara, poeta e compositor, que cantou o Velho e o Novo, sempre em companhia luxuosa de um violão: “Deixe o velho em paz/com suas histórias/de um tempo bom/ quanto bem lhe faz murmurar memórias…”.

O que é o envelhecer, em meio a tantas conjeturas filosóficas e poéticas? É o determinismo trágico do inexorável? Por que o ser humano resiste à morte e se mortifica ao apagar das luzes da sonhada juventude eterna? Em meio ao complexo vital da utopia humana, perder a mocidade e, consequentemente, a beleza, se nos assemelha com verdadeiramente morrer.

Sigamos com Taiguara: “Em seu dorso farto/carrega o fardo de caracol(…). E nos ensina a enfrentar o velho com naturalidade do determinismo biológico, legados inelutáveis do nosso relógio biológico, vitórias minimizadas, perdas enrugadas em nossa face nocauteada pelos estertores das células as quais críamos inexpugnáveis.

“Range o velho barco/lamento amargo do que não fez/E o futuro espelha/esse mesmo velho/que são vocês.” É o nosso saudoso Taiguara, nascido Taiguara Chalar da Silva, em Montevidéu, no dia 09 de outubro de 1945 e morto no trágico dia 14 de fevereiro de 1996, em São Paulo, aos 50 anos de idade, vítima de uma metástase provocada por um câncer na bexiga. Não chegou a envelhecer. Não usou os próprios versos em sua defesa, nem a esperança de derrotar o relógio implacável presente no interior do velho que somos todos nós.

Deixemos o velho entrar. Ele é nossa garantia de uma guerra em cujas batalhas fomos vencedores. Ao abrirmos nossa porta, eis que a luz enevoada do improvável olhar se mantém para os suspiros e os traços verdes de todas as nossas indefectíveis esperanças. Porque, como diria Fernando Pessoa, “Navegar é preciso/Viver não é preciso.”

Todavia, não deixe o velho entrar. Não em nosso amor pela vida, não em nossa necessária vaidade, jamais em nossa crença de que a imortalidade existe. O velho que habita em nós é necessário e nos redime de todos os excessos e erros de nosso caminhar em juventude. É ele que nos garante o presente, as glórias dos anos bons e das conquistas sem valor algum para a eternidade, mas caras ao nosso oxigênio existencial. O velho que bate à nossa porta é nosso amor simbolizado nas rugas faciais, nos passos indecisos, nas dores e na imprecisão do tempo. Mas o velho que bate à nossa porta somos nós mesmos em desespero de viver mais. Escancarar a porta para que o vejamos rente ao fogão de lenha, olhar fixo nas chamas vivas, sentidos a postos pela construção do alimento, esperança de um amanhecer adicionado ao tempo que não se apaga à mera desilusão face à inexorabilidade da escuridão.

O autor é escritor, professor, jornalista, radialista e advogado.

Edson Andrade
Edson Andrade

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