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Salvem o drible, a beleza natural ameaçada do futebol

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Estamos em uma época em que no futebol se discute variações táticas, posicionamentos, proximidade de linhas e tantas outras coisas, mas se ignora por completo aquilo que ele tem de mais belo: o drible.

Praticamente todos começamos a amar o esporte por causa do drible. Fintar um adversário era mais gratificante do que marcar um gol. Dar uma caneta, um rolinho, um lençol ou uma carretilha, era isso que rendia comentários e gozações depois do jogo e fazia a pelada da rua valer a pena.

Por muitos anos, talvez décadas, o Brasil levou esse espírito peladeiro para os campos profissionais. E sempre foi lindo de ser ver. Porque de certa forma, a finta é um tipo de blefe, no melhor sentido da palavra: ela indica que se vai fazer algo e, de repente, outra coisa acontece. E quem não adora uma surpresa? O drible é tão divertido que deveria ter um feriado só para ele, mas não tem. O mais perto que se chega é o dia internacional do blefe, em 7 de fevereiro.

O drible sempre esteve na essência do futebol nacional e foi parte fundamental de grandes conquistas. Basta olhar as Copas do Mundo. Em 1958, Pelé deu um chapéu dentro da grande área para fazer um gol na final contra a Suécia; em 62, Garrincha carregou o time com o seu gingado até à vitória derradeira contra a Tchecoslováquia; em 70, teve a sequência de Clodoaldo no meio campo que começou a jogada do quarto gol contra a Itália e em 2002, Ronaldinho Gaúcho começou a enfileirar ingleses e passou para Rivaldo empatar um jogo enroscado.

E você pode estar se perguntando: “e em 1994?”. Sim, o Brasil ganhou a Copa nos Estados Unidos, mas foi a vitória com menos dribles. E, talvez por isso, considerada a mais “feia” de todas as conquistas. Vamos combinar, ganhar com 0 x 0 na final e pênalti batido para fora não é tão bonito. Mas ainda assim, obrigado, Roberto Baggio.

Por outro lado, ninguém esquece a seleção de 82, de dribladores do calibre de Zico, Falcão e Sócrates, com seu inesquecível calcanhar. Perdemos, mas caímos driblando. E todo mundo lembra com saudosismo dessa derrota agridoce, onde Paolo Rossi só não fez chover.

E para não ficarmos apenas na seleção canarinho, podemos citar Maradona em 86, com dois gols antológicos contra a Inglaterra: primeiro o que ficou conhecido como “mão de deus” e depois o segundo, no qual passou por metade do time adversário. [media-credit name=”Pixabay” align=”aligncenter” width=”1920″][/media-credit]

 

Mas em algum momento o Brasil esqueceu o drible. Provavelmente foi a globalização, que começou a trazer os conceitos de educação tática e alto desempenho tipicamente europeu, onde o que conta é a eficiência e a disciplina. Também nossos craques vão jogar na Europa, cada vez mais cedo, e lá são moldados nos mesmos princípios de organização. E o drible é exatamente o oposto. Ele é improvisação, é bagunça e, por isso mesmo, um recurso valioso e lindo de se ver.

Basta imaginar seu time jogando contra aquela clássica retranca: duas linhas de quatro bem próximas, em um bloco baixo na frente da área. É comum ver os times de hoje rodarem a bola de um lado para outro, esperando aparecer um espaço na defesa que, na maior parte das vezes, não surge. A solução para quebrar esse sistema é simples: um drible.

Se um jogador habilidoso finta seu marcador, outro adversário vai ter que sair na cobertura, e a linha vai se romper. No buraco que surge, um colega pode se projetar para receber um passe, o que vai obrigar outro atleta a cobrir o espaço, esfarelando definitivamente o posicionamento defensivo. Basta um drible.

Atualmente, o jogador brasileiro dribla pouco. Pode ser que algo tenha a ver com o desejo de atuar no exterior, onde o ato às vezes é considerado como um exemplo de indisciplina. Mas se engana quem pensa assim. A finta sempre fez parte (e continuará fazendo) do lado mais bonito e diferenciado do futebol.

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