Inicio » Política » Urna manda recado e pede mudança na prática política

Urna manda recado e pede mudança na prática política

Urna manda recado e pede mudança na prática política

Zé Silva foi reeleito pelo Solidariedade para cumprir o terceiro mandato na Câmara Federal. Ele também foi secretário de Estado e presidente da Emater.

Deputado Federal Zé Silva
Deputado Federal Zé Silva

 

Reeleito com 109 mil votos, o deputado federal Zé Silva tem história em Uberaba, onde morou por diversos anos ocupando o cargo de gerente regional da Emater. O atual presidente do partido Solidariedade em Minas, diz que o eleitor enviou mensagem através das urnas sugerindo mudanças nas práticas políticas. Na Câmara pretende ter uma postura independente em relação ao Governo Bolsonaro. Engenheiro Agrônomo com farta vivência no meio rural, Zé Silva é um político com um base eleitoral imensa, obtendo votos em 93% do municípios de Minas. Nessa entrevista Zé Silva fala de projetos, postura política e das reformas que estão em pauta.

Jornal de Uberaba– O eleitorado reconheceu seu trabalho ao conceder-lhe um novo mandato e, ao mesmo tempo, retirou do cenário vários deputados tanto do Triângulo Mineiro como também de outras regiões. Como o senhor avalia o desenho do novo mandato com essas mudanças?

Zé Silva – O Brasil está vivendo um momento muito especial de sua democracia. A população demonstrou que é preciso reinventar a maneira de fazer política e eu me sinto muito honrado por ser um dos cinco deputados mineiros que foram reeleitos sem perda de votos. É um reconhecimento importante e, por isso, estou ouvindo as comunidades e mantendo o comprometimento do meu mandato com as transformações sociais, especialmente com os segmentos ligados ao campo, das questões ambientais e da revitalização dos rios, sem deixar de aprimorar mecanismos para o uso eficiente de recursos públicos. Estamos agora, até fevereiro, planejando nossas ações para o próximo mandato.

Jornal de Uberaba – A eleição do presidente Jair Bolsonaro também gerou novos desafios para a representação parlamentar. Como o senhor avalia o papel do Parlamento nesse cenário?

Zé Silva – Espero que o parlamento brasileiro também tenha uma nova forma de atuação. A população, como afirmamos, deixou claro que a antiga maneira de fazer política não serve mais. De cada três senadores, dois não voltaram, e de cada dois deputados, um ficou sem se reeleger. É uma sinalização importante. Estamos num momento de transição, onde a transparência é fundamental para o parlamento que, por sua vez, precisa facilitar a estimular a participação da população para que ela compreenda a necessidade das reformas que iremos votar. O parlamento é uma caixa de ressonância da sociedade, estamos num sistema representativo e todos chegaram aqui através do voto democrático. Espero que o novo parlamento seja protagonista de um novo tempo para Minas e o Brasil.

Jornal de Uberaba – O senhor é filiado ao Solidariedade, partido que apoiou Geraldo Alckmin do PSDB nas eleições presidenciais. Como o senhor e, claro, o partido se posicionarão em termos políticos em relação ao Governo?

Zé Silva – O Solidariedade vai adotar uma posição de independência em relação ao governo, o que significa que não estaremos alinhados nem ao Centrão, nem a direita e nem a esquerda. O que orientará nossa posição será a defesa dos interesses da população, das teses defendidas pelo partido que visam assegurar os direitos dos trabalhadores, a produção sustentável de alimentos, especialmente da agricultura familiar. Pretendemos também trabalhar o novo desenho da reforma agrária, defendo um novo tempo para esse setor, até porque, contribuí com emenda para a lei 13456 e, ainda, nos empenharemos para assegurar aos segmentos minoritários pautas que sejam importantes para eles. Portanto, vamos ouvir a população e não apenas o Governo.

Jornal de Uberaba – O Brasil está, claramente, assumindo um viés conservador que exigirá mudanças de comportamento do parlamento brasileiro. Como o senhor avalia essa nova perspectiva?

Zé Silva – O ponto mais importante, a meu ver, é assegurar o fortalecimento da democracia, ressaltando que minha geração, de pessoas com mais de 50 anos, esteve nas ruas em 1985, na campanha das Diretas Já, para reconquistar o direito de votar. Então, fortalecer a democracia é fortalecer a representatividade e garantir maior participação da população nas decisões importantes para o país. Claro que cada parlamentar tem suas teses e eu vou me empenhar para defender as minhas, já citadas acima. Mas quero ressaltar que me empenharei também para mudar a forma como o Brasil vem gastando seus recursos, para evitar o desperdício simbolizado por mais de 14 mil obras paradas existentes hoje no país.

Jornal de Uberaba – E nesse cenário estão em pauta inúmeras reformas e, entre elas, a tributária, política e mudanças conceituais na educação. Na sua opinião, o ambiente sinaliza pela aprovação, sem maiores resistências, ou caminhamos para um amplo debate?

Zé Silva – Vou colocar todas as minhas energias para que as reformas passem por um amplo debate. Tenho estudado experiências de países mais bem sucedidos, como Alemanha e França e visto que o Brasil adotou um modelo de desenvolvimento equivocado. Um exemplo é a opção pelo transporte rodoviário em detrimento de ferrovias e hidrovias. Na área tributária também temos um sistema falho ao tributar o consumo e não a renda ou ao capital. Em outros países, onde a diferença entre ricos e pobres é menor, tributa-se a renda e o capital, evitando essa distorção. Quando vamos ao supermercado todos pagam os mesmos impostos, fato que pesa mais no bolso dos menos favorecidos.

Zé Silva trabalhou como extensionista rural na Emater,(MG), desde então é um grande defensor da agricultura familiar

Jornal de Uberaba – E tem também a questão da Previdência Social que tem sido colocada com mais ênfase pelo Governo que assume em janeiro como essencial para o país. E, nesse caso, como o senhor avalia o quadro?
Zé Silva – Na reforma da previdência já deixei claro que não podemos tratar diferentes de forma igual, que existem segmentos que não podem se aposentar com a mesma idade. A mulher e o homem do campo não podem receber o mesmo tratamento das pessoas que vivem na cidade, já que a rotina de trabalho deles é mais desgastante e precisam de um limite de idade que contemple essa condição. Essa posição foi manifestada por mim na reforma proposta pelo governo Temer e continuo com a mesma convicção em relação a essa questão especificamente.

Jornal de Uberaba – A centralização de receitas e poder político em Brasília fragiliza, de certa forma, estados e municípios. Como o senhor avalia esse modelo de gestão do Governo Brasileiro?

Zé Silva – Há tempos que ouvimos que o pacto federativo precisa ser rediscutido já que o país que não suporta mais a centralização de receitas no governo federal. E sabemos que hoje cerca de 38% do PIB, de toda a riqueza produzida no país, são impostos e a contrapartida não se traduz na prestação de serviços de qualidade. O que agrava ainda mais a questão. A vida não acontece em Brasília, ela está nos municípios que poderiam reter parte dessa riqueza para atender suas demandas. Toda semana milhares de prefeitos e vereadores vão peregrinar em Brasília mostrando a deficiência do sistema distributivo. A descentralização poderia economizar até 15% do total de impostos, gerando um adicional vultuoso de recursos para o país.

Jornal de Uberaba – O senhor foi votado em centenas de municípios mineiros e tem, portando, uma visão global sobre as principais carências de todos eles. Em especial, para Uberaba e região, quais são as ações que estão planejadas?

Zé Silva – Estou muito honrado com os votos que recebi da região nas eleições que disputei. Creio que devemos pautar nossas ações em três eixos importantes para o desenvolvimento da região focados no agronegócio, na logística, infraestrutura e difusão de conhecimento. Uberaba é um polo muito forte no agronegócio e tem demandas importantes para potencializar essa vocação como, por exemplo, a conquista do gasoduto. Portanto, creio que podemos discutir e trabalhar nesses eixos para gerar mais desenvolvimento, emprego, renda e qualidade de vida para população.

Jornal de Uberaba – Em Minas Gerais, com a eleição de Romeu Zema, mudanças significativas são esperadas em termos de gestão. Na sua opinião o que se pode esperar do novo governador?

Zé Silva – Ainda é muito cedo para fazemos uma avaliação de como será o perfil do Governo Romeu Zema. Mas sabemos que existe uma proposta diferente e isso me deixa esperançoso com a possibilidade de Minas sair do marasmo em que se encontra. Sou muito simpático às mudanças em processos de gestão e procurei fazer isso quando deixei a gerência da Emater em Uberaba e ocupei a presidência da instituição, em Belo Horizonte. E fomos bem sucedidos ao incorporar universidade e academias no novo modelo de gestão. Como presidente do Solidariedade em Minas, quero colocar à disposição do governador eleito nossos deputados, prefeitos, vereadores e o partido para ajudar a resgatar Minas e reduzir as diferenças regionais.

Jornal de Uberaba – O senhor sempre foi muito identificado com o setor rural, tendo em vista sua origem como servidor da Emater. Quais as mudanças que senhor vislumbra para o setor no novo governo?

Zé Silva – Minas gerais é um Estado agrícola onde 72% dos municípios tem essa atividade econômica como a principal. Mas é preciso redesenhar a legislação ambiental e destravar o setor para que ele se desenvolva da forma necessária. Na outra ponta aparece como limitador desse desenvolvimento a questão da energia, já que a Cemig não consegue oferecer volume que permita ampliar os investimentos. Da mesma forma, a logística continua ruim e os investimentos em órgãos fundamentais como Emater e Epamig estão muito aquém do necessário. Na Emater, por exemplo, o último concurso para repor pessoal foi feito em 2004. Então temos muitas coisas para corrigir e temos expectativa que isso venha a ocorrer.

Jornal de Uberaba – A extensão rural é de grande valia para melhorar a produção agropecuária no Brasil. Depois de alguns anos, sem a devida atenção, existem perspectivas de mudança positiva em relação a ampliação da extensão rural?

Zé Silva – Existem sim. Como resultado de movimentação que iniciamos em 2005, conseguimos criar a Anatec, uma agência nacional que tem procurado levantar recursos para empresas estaduais de extensão rural e obtido sucesso. Na Câmara Federal sou coordenador da bancada de Defesa da Extensão Rural que vem trabalhando para restabelecer o funcionamento do sistema, para ampliar a contratação de profissionais e estruturar o serviço. Hoje, apenas 50% dos produtores brasileiros tem acesso ao serviço que ajuda multiplicar por 4 a produtividade por hectare. Portanto, se quisermos multiplicar nossa produção precisamos investir na extensão rural.

As informações são do JORNAL DE UBERABA

Aviso: Nossos editores/colunistas estão expressando suas opiniões sobre o tema proposto e esperamos que as conversas nos comentários de artigos do JORNAL MONTES CLAROS sejam respeitosas e construtivas.O espaço de comentários em nossos artigos é destinado a discussões, debates sobre o tema e críticas de ideias, não às pessoas por trás delas. Ataques pessoais não serão tolerados de maneira nenhuma e nos damos ao direito de ocultar/excluir qualquer comentário ofensivo, difamatório, preconceituoso, calunioso ou de alguma forma prejudicial a terceiros, assim como textos de caráter promocional e comentários anônimos (sem nome completo e/ou email válido).



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *