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Coluna de Leandro Heringer – Democracia para quem?

O vandalismo ocorrido em 8 de janeiro de 2023 na Praça dos Três Poderes foi marcante. Não foi inédito. Manifestações anteriores, notadamente em 2013 e 2017, também originaram depredação aos espaços públicos.

As manifestações de recordação dos atos ocorridos no último ano trouxeram um novo ingrediente. “Sem redes sociais não haveria tentativa de golpe” é o título de uma matéria da Agência Brasil, órgão de notícias oficial do Governo Federal.  No texto, uma especialista de uma Organização Não Governamental defende que as mídias sociais possibilitaram o vandalismo.

Mais uma tentativa de justificar a censura disfarçada de regulação defendida por certos políticos. As plataformas digitais criticadas nesse contexto são as mesmas defendidas no início dos anos 2010 como potencializadoras da “Primavera Árabe”. Ocorrido entre 2010 e 2013 em diversos países, essas manifestações tiveram início na Tunísia e, com o auxílio das, agora criticadas mídias sociais, rapidamente tomaram conta das ruas países como Egito, Líbia, Síria, Iêmen, Barein e Marrocos, com reivindicações específicas. Em alguns desses países a democracia, se existente, era vista como relativa.

Não se está comparando o movimento, mas a percepção sobre as plataformas digitais. Se são usadas para determinado fim ou contra linha ideológica específica, devem ser livres por facilitarem a mobilização social. Contudo, em contextos diferentes, de acordo com percepção da realidade de certo grupo as mesmas tecnologias devem ser regulamentadas.

Quem ganha com o cerceamento do uso das plataformas digitais? A internet deu voz a quem não deveria? Ou a quebra do monopólio do discurso constitui ameaça a certos setores, poderes e interesses? O monopólio na produção e legitimação da informação é do interesse de quem?

A comunicação não é unilateral. A democracia também não. Há ruído nos processos tanto de um quanto de outro. Esse ruído, o atrito consiste na possibilidade de amadurecimento tanto do processo comunicacional quanto democrático. Tanto comunicação quanto democracia são, necessariamente, inclusivos. Se esse não for o pensamento, deve-se questionar “Democracia para quem?”.

Leandro Heringer