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Coluna do Adilson Cardoso – Naqueles dias dos anos 80 na velha Montes Claros

Coluna do Adilson Cardoso – Naqueles dias dos anos 80 na velha Montes Claros

Gilberto disse ao negrinho que no bar estavam precisando de ajudante, ele estava de emprego novo, seria assistente do tio no escritório de Contabilidade. O negrinho era Quati, filho de um negrão com uma cicatriz na boca, que trabalhava na fabrica de óculos, próximo ao trevo. Quati não era nome de registro, na carteirinha carimbada com a palavra “presente” Selma a líder da sala sempre questionava o apelido, mas o negrinho desconversava e dizia ter várias  alcunhas. No outro dia bem cedo, próximo das 06:00h da manhã, Quati chegava ao local indicado pelo colega de sala na noite anterior, iria fazer quinze anos, tinha estatura média, pernas magras e joelhos grandes, cabelos crespos e muita timidez. O bar e lanchonete Hora Certa estava repleto de gente, naquela hora a fila que se formava do outro lado da rua dobrava a esquina da Avenida Afonso pena. Do lado de dentro do balcão, apenas uma pessoa atendia em desassossego aquela porção de gente.

— Moço, me daqui um pão de queijo! – Gritava o velho careca com o copo de café com leite na mão.

— Ei, aqui ó! Quero uma coxinha e um suco de laranja! – Sussurrava uma loura, apontando a estufa.

— Eu, eu, vim aqui… Que Gilberto falou que cês tava precisando de alguém pra trabalhar! – Falou Quati com sua boca franzida pelo frio de junho, a voz miúda precisou ser repetida para dar o recado!

— Cê é amigo do  cú de frango? – Falou o atendente sorrindo  sem pudores. Ali todos eram rebatizados por alcunhas criadas pelos clientes.

— Gilberto é o cú de frango? Sou amigo dele não,  nós é só  colega de sala no Armênio Veloso!

— Cadê meu pão de queijo que eu pidi? O café ta isfriano! – Alertou o velho coçando a careca.

— Entra ai! Vai à cozinha e pega um jaleco, veste lá e vem me ajudar, depois conversamos! – Falou Quico, lavando copos e acompanhando com os olhos, os clientes que não paravam de chegar.

Quati  entrou de cabeça baixa pela portinhola do balcão, sorrindo  fez o sinal da cruz e foi direto a cozinha. O pequeno cubilo em L, tinha um cesto de lixo feito de pneu reciclado, estava tão cheio que a tampa pendia para um lado, um saco de laranjas aberto, sobre um balcão de mármore escuro acompanhando uma pia, abarrotada de panelas e pratos. Uma maquina de fazer suco com jeito de que foi usada há pouco tempo e, finalmente, embolados dentro de uma sacola plástica, estavam dois jalecos. Quati se vestiu, abotoou desajeitado e foi cantarolando por dentro. Assumiu a pia enquanto o chefe ia atender o caixa, terminou de lavar, foi também atender o balcão. Não tinha ainda uma hora no emprego, quando chegou um dos guardas do INAMPS, César era o nome dele, um dos primeiros na lista dos zombadores, já quis saber quem era aquela figurinha  magrela de  beiços franzidos.

— O novo secretário, acabou de ser admitido! – Respondeu Quico.

Imediatamente o Secretario, já estava nomeado, “Creta” o diminutivo de Secretario com um quê de mistério Sherlockeano, com as devidas  justificavas  do autor da alcunha. Quico era o gerente, tinha pele branca com  sardas na face, feito menino traquina,  às vezes os olhos lacrimejavam, motivo pelo qual estava sempre com guardanapo nos bolsos. Dependendo da forma que olhasse, parecia ser caolho.  A fila que se formava todos os dias ali naquela frente, era de pessoas em busca de consultas, exames e outras questões ligadas a saúde, ainda não existia o SUS e a luta para se curar de uma simples tosse, exigia força física e paciência. Na noite do primeiro dia de trabalho, Quati que na carteirinha de presença, a líder da sala verificara que não se chamava daquela maneira, mas na lanchonete fora rebatizado por Creta, sentia-se enormemente cansado, mas precisava pousar de trabalhador daquele estabelecimento e contar aos colegas anedotas e outras curiosidades,  ouvidas durante as ultimas horas. Ao final da primeira quinzena, fizera um vale para ir ao cinema com os filhos de dona Lourdes, que por já trabalharem como empacotadores de Amendoim, tinham sempre os trocados em sábados e domingos, Quati levou seu  irmão mais novo o João Bochecha, também como prova de que já poderia se manter, comprou  sapatilha estilo Michael Jackson, calça frouxa com bolsos largos dos lados da perna e, camisa colorida com personagens de historias em quadrinhos. Para completar o pacote, o desodorante Três de Marchand e um Shampoo Neutrox. Tudo além das expectativas, inclusive o filme escolhido foi  da sessão das dez, um clássico da Cicciolina, num enlouquecido vale tudo, para mostrar de vez a independência nos seus quase quinze anos. Após o filme uma bronha relâmpago numa esquina escura e, a parada obrigatória para comer um Bauru e tomar uma Coca-cola no Kilanchão. Mas enquanto os quatro rapazes desfrutavam da paz daquela noite pacata de sábado, esperando os lanches ficarem prontos, estacionava  um Fiat 147 vermelho com jeito de recém polido, som de George Michael enfeitiçando o ambiente com  o romântico sucesso, “Careless Whisper” Duas louras e duas morenas, botas de amazonas, camisas amarradas no umbigo, peitos enormes e saias curtíssimas, parecia que as atrizes do filme que haviam acabado de assistir, tinham saído da tela.  A motorista foi  direto a mesa deles;

— Alguém aí tem fogo? – Perguntou  mostrando um maço de Hollywood e parte do bico dos seios.

Eles se olharam, mas antes de abrirem as bocas, na  mesa do outro lado, a única ocupada,  além da que estavam, foi oferecido  um isqueiro dourado já com a chama acesa. O papo foi  curto, talvez algumas piscadelas e outros códigos sexuais, para que  o Fiat  saísse  com o som em altos decibéis, desta vez,  tocando  a musica da banda Yahoo “Mordidas de amor” os garotos do fogo iam seguindo eufóricos  dentro de um Corcel II,  azul claro, dava para ouvir seus gritos. Após o lanche silencioso, durante quase uma hora de caminhada, do centro da cidade até a Vila Ipiranga, os quatro foram lamentando a falta de um isqueiro. Próximo ao DER um gay drogado virando uma garrafa de Cortezano no gargalo, fazia um strip-tease, mostrando  sua bunda magra sob uma calcinha vermelha. Gritava quem quer, mas  ninguém quis,  seguiram cabisbaixos e  lamuriosos.

— De que adiantaria o isqueiro, se não temos carro! – Falou o amigo do nariz adunco.

— Não tem carro, mas tem dinheiro do taxi! – Ponderou  Quati, fazendo-os lembrarem de que ele não era mais,  um durango qualquer.

Foram dormir com seus pensamentos em Cicciolina e suas mãos deslizando pelos membros em pinotes. Na segunda o sol acordava gritando, “É hora de trabalhar molecada!” Quem tinha o seu que “botasse sebo nas canelas”, Quati fazia o sinal da cruz as dez para as seis na porta da lanchonete, varias pessoas já estavam na espreita, as portas subiam, o cafezinho quente com pão de queijo era a maior pedida. Lá pelas  sete horas, Quati lavava alguns copos quando chegou  o Major Jamilton do CPA 03 que funcionava ao lado, ele tinha nas mãos o Jornal do Norte, com a foto de quatro rapazes encontrados mortos num matagal, na saída de Pirapora, suas gargantas e genitálias haviam sido cortadas. O Major frisou  que a policia estava a procura de quatro testemunhas que segundo o atendente do Kilanchão, estavam na hora em que os rapazes acompanharam o grupo de mulheres. O jornal dizia que se tratava de uma Gang de Travestis do Espirito Santo  que estava agindo na região,  aliciavam homens entre 15 e 45 anos para o sexo, lá matavam para roubar, só não se explicava por que cortavam as gargantas e os ovos. Quati, pediu  ao chefe que o deixasse fazer seu horário de almoço escondido ali no cantinho da cozinha, pois não se sentia bem. Não dizia, mas tinha medo de ser reconhecido na rua.

— Você viu no jornal sobre os assassinatos  dos rapazes que estavam no lanche? – Comentou  um velho orelhudo tomando um cafezinho para fumar.

— Sim, mas parece que a policia suspeita que tenha outros envolvidos no caso né? Uma turma que estava sapeando para ajudar os Travecos, parece que o dono do Lanche contou alguma coisa! – Argumentou o outro que mordia um pastel.

— Esse mundo ta uma desgraça! A policia tem que encontrar esses ai e moer no cacete! – Disse um manco que se escorava na muleta.

Quati saiu correndo  de dentro da cozinha,  trombou no homem que caiu sobre a muleta, estava com uma grande barra de gelo enrolada num pedaço de pano, as pessoas fervilhavam naquela hora, iam almoçar, levavam crianças na escola, vendiam coisas na rua, carros buzinavam e Quati correndo  alucinadamente, chegou a praça da Catedral o sino batia, ele blasfemava, alguns pombos que catavam, só não morreram na bica do sapato por terem asas ligeiras, virou a rua Grão Mogol um doido falava sozinho arrastando seus trapos, ele pisou sobre eles,  o doido ameaçou  jogar alguma coisa, Quati estava mais doido que o doido e,  esperou com olhos em brasa, — Taca  que eu te arrebento! – o doido não quis arriscar. Atravessou a Rua Coronel Antonio dos Anjos, o Trailer de lanches só abria de noite, mas o atendente que também era proprietário, fazia a limpeza. Estava de costas, Quati segurava o embrulho em posição de ataque, já havia assistido num filme pornográfico, uma mulher matar seu amante com uma barra de gelo, ele mataria aquele homem para se livrar do pavor, ninguém mais testemunharia para incriminá-los. Com a força  que tinha nos músculos subnutridos,  levantou  o braço e desceu, era para ser  na nuca, na mais vil das traições, se fodia a ética do assassino, precisava apenas se livrar daquele pesadelo. Mas Quati havia se esquecido, de que o gelo não se sustentava  por tanto tempo naquela  temperatura, quando o embrulho arriou para ser o tiro certeiro, o máximo que conseguiu foi  respingar    gotas de água ainda geladas no pescoço do homem,  que era bem mais forte que ele.

— Opa! – Bramiu o enervado  se virando rapido. — Você jogou alguma coisa em mim seu moleque?

— Não, joguei não! – Respondeu Quati, anêmico e com a boca ainda mais franzida pela desidratação do frio, da fome por não ter almoçado e do medo de ser estraçalhado pelo cara que estava de semblante  terrivelmente fechado.

— O que é que  você quer?

— Eu, é, eu, eu queria perguntar se tem sanduíche agora?

— Da próxima vez, pergunta de longe viu? Eu ando sem um pingo de paciência! Pra mim torcer o pescoço de um é daqui pra li, entendeu? Some daqui miserável, vá procurar sanduíche durante o dia na puta que o pariu! – Após o grito que ecoou em toda a redondeza, o homem se virou e seguiu limpando o cimento verde, de repente, pareceu ter se lembrando de algo,  voltou os olhos para Quati que estava andando depressa e berrou ainda mais alto;

— Ei, ei pivete! Você por acaso não era um daqueles que estavam aqui no sábado á noite?

Quati que estava em falência de órgãos pela  fome e o  medo, recebeu uma milagrosa injeção de adrenalina,  correu tanto que quando o atendente do Kilanchão pegou a bicicleta P10, não havia mais, nem rastro dele.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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