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Coluna – Inocência

João tinha apenas 06 anos, ingênuo, filho e neto do mato. Conhecia a música tocada pelas rodas dos carros de boi, também aquela chata do violão desafinado do pai, que só se lembrava de que era artista quando tomava algumas doses de pinga. A vida não era fácil para João e nem para os outros 10 irmãos, ás vezes passavam fome, principalmente quando a chuva demorava a cair, os animais das redondezas com exceção do cachorro magrela e pulguento haviam se transformado em alimento para as bocas fomentas. Mas certo dia um avião monomotor que levava um desses políticos abastados para Brasília chocou-se com um Urubu que partia da sequidão em busca de comida, por sorte da tripulação os paraquedas já estavam às costas e conseguiram se salvar caindo no terreiro da casa de João. O Urubu coitado, caira atordoado e poli traumatizado, aquele cão magrelo e pulguento que em outra ocasião presenciara um irmão sendo almoçado por esta ave… O resto nem precisa contar, o banquete foi em baixo de uma moita de capim seco. O politico, um assessor e o piloto foram objetos de cobiças dos olhares que se esconderam antes de chegar perto e belisca-los para sentir que era gente como eles, com a diferença do cheiro de perfume e das roupas esquisitas. Com todas as doses de demagogias que era do feitio do político, ao tomar ciência da situação miserável daquela gente, assinara cheques expressivos para que o pai de João fosse até o comércio próximo e voltasse com o de comer. Naquela noite se embolaram sobre tiras de couros e colchões de capim, mas no outro dia bem cedo foram resgatados por um helicóptero com o brasão da Câmara dos Deputados. Mas não foram  sozinhos, dali levaram João para a cidade como afilhado, com a promessa de colocar o garoto para estudar e se tornar alguém importante. Pobre do João se mijara todo dentro daquele aparelho barulhento que se via pessoas miúdas feito formiga lá em baixo. Na cidade João achava tudo muito diferente, Jantar na mesa era um sacrifício, vez por outra apanhava o prato e sentava-se no chão para comer com a mão. Todas as suas eliminações fecais eram feitas na grama do jardim ou  atrás dos coqueiros ao lado da quadra. Um mês depois da sua partida, chegava um senhor de poucas palavras e terno com gravata, parando uma Caminhonete de placa oficial na cancela de entrada da casa dos pais de João, roupas novas, mochila nas costas, livros, cadernos e uma boa quantia em dinheiro para se alimentar. Assim fora deixado o garoto ali a espera do pai que o avistara de longe. O carro desaparecera no meio da poeira.  Tristes e ao mesmo tempo felizes pela volta do filho, souberam o motivo real da devolução quando João descansado e bem humorado relatara assim: – Sabe mãe, lá tem um quartim que chama banheiro e o tio me falou que eu teria que fazer xixi e outras coisas numa vasilha branca grudada no chão que se chama vaso, mas eu só ia na grama e de trás dos pé-de-côco. Ai esturdia quando o tio foi nesse lugar, eu escondi para ver como era, quando ele saiu eu entrei, tinha folha de alface em cima da água. Aí né, quando tinha um tanto de gente comendo na mesa, eu falei que aquele alface na saladinha estava gostoso, mas aquela que o tio  jogou  na água do vaso tinha gosto de cocô.”.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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