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Coluna do Adilson Cardoso – Presente para a Noiva

Coluna do Adilson Cardoso – Presente para a Noiva

Ela estava dentro de uma Limusine, vestida de branco, linda como as personagens dos seus contos de fadas. Ansiosa contando os segundos para o seu casamento, era o sonho da sua vida se realizando. Paralelo a felicidade que sentia recordava acidentalmente aquele 18 de dezembro de 2010, um dia como este  ensolarado de céu azul com a orquestra de vozes e poemas fazendo o espetáculo na porta da igreja de São João do Batistelo e foguetes estourando aos arredores. Sacode a cabeça fortemente e diz um não com vigor, remoer tudo aquilo seria uma nova fase de tortura,  principalmente quando ela tinha certeza de que a tal  infelicidade ficara nos túmulos do passado sem direito a  exumação, preferia pensar nos beijos do  Walter, nos momentos bons que viveriam juntos e nos filhos que ela já imaginava os nomes. De olho no espelho abriu a boca para admirar o branco dos dentes e a doçura do hálito quando um ruído forte fez o carro zig-zaguear na pista e parar bruscamente no acostamento. Sem noção do que acontecia, ouviu do condutor que o pneu do carro havia estourado e infelizmente não possuía  estepes já que as revisões neste tipo de veículo são altamente seguras. Mas aquele momento guardava outra desventura, o celular do motorista estava sem carga, como diria Murphy o que é ruim ainda pode piorar. Também confessou que na bifurcação tomara o atalho errado. Pedindo desculpas  orientou que ela permanecesse dentro do carro, poderia ficar sem medo  pois era  blindado, tinha toda segurança,  ele  sairia para buscar ajuda. Ainda faltavam alguns pedaços longos de chão até a igreja escolhida e decorada por ela, mas não tinha discernimento de onde estava ou como  chegar, só levava a certeza de  uma incomoda sensação de pavor  que parecia tirar-lhe o fôlego.  “Angelina  Áurea de Abreu aceita João Pedro de Jesus como seu legitimo esposo?” perguntara o padre. “Sim!” respondera a noiva com sorriso nos lábios. “Seu padre pare agora este casamento! Senhor João Pedro de Jesus, vulgo “Cabrobró” considere-se preso pelo crime de seqüestro e extorsão!”. Gritou da porta dos fundos  da igreja o delegado da Policia Federal com arma em punho acompanhado de outros agentes. Aquelas memórias  mastigavam  seu inconsciente expulsando-a  de dentro do veículo, ficar ali esperando não estava nos planos daquele dia, por isso saiu  correndo agarrada  ao vestido longo, arrancou os sapatos para ganhar mais liberdade e seguiu  procurando por todos os lados. Gritando por socorro  colocava a mão no ouvido em busca de respostas,  quando olhou para trás e percebeu o quanto havia andando  a Limusine estava minúscula e solitária para a amplitude do seu pavor.

Sob um Jatobá do Cerrado que precipitava os  galhos de pequenos frutos para parte da pista  parou para respirar,  a sombra tinha ventilação, dentro de um capim com sinais de queimadas  havia uma velha placa de indicação  roída pela ferrugem. Angelina chorando alto se lastimou com receio  de uma nova tragédia no caminho da sua felicidade, os pés doíam com bolhas em parceria  com a cabeça se culpando por  ter esquecido o espelho e a bolsa de maquiagem. Com o pé novamente no asfalto clamou ao  céu onde  Urubus voavam em círculos, pediu ajuda, antes que baixasse a cabeça um caminhão Mercedes Benz 1113 azul  de pintura semi-nova, passou por ela com uma frase no pára-choque; “Para quem não tem nada metade é o dobro”. Invadida pelo ímpeto da sobrevivência Angelina se posicionou na linha dos olhos do retrovisor e pulou diversas vezes, sacudindo os braços e gritando. Seu pedido foi atendido imediatamente e numa ré de pouca fumaça o rosto do motorista simpático estava ao seu lado. Disse chamar-se Carlos Jailson e levava o caminhão que tinha placa de Vitória da Conquista –BA para Pedro Leopoldo – MG, aparentava pouco menos de 50 anos com barba rala e cabelos pintados de louro feito o cantor Ovelha. Dentro da cabine ela enxugava as lágrimas enquanto contava sua história, o motorista cordial ofereceu  bebida, dizendo que ela pudesse se servir do freezer que ficava na boléia. Contando as horas para retomar  seu casamento ela aceitou e se atreveu a virar-se em busca de água gelada, mas para a sua  surpresa atroz, centenas de armas estavam empilhadas por trás das cortinas, via-se também alguns tabletes que reconheceu como maconha. Livida, de coração pulsando na garganta, voltou-se tentando parecer natural, mas o homem havia percebido e travado os vidros das janelas, desesperada Angelina pediu pelo amor de Deus que a deixasse descer. Porém a voz rouca e mansa do homem com cabelos pintados de louro como o cantor Ovelha  ordenou com um revolver 38 apontado que ela  tirasse a roupa, ao relutar ele  segurou o volante com apenas uma mão e encostou levemente  o dedo no gatilho. Tomada pelo pavor de ser morta ali, obedeceu e foi se submetendo aos fetiches que ele determinava, pouco a frente o caminhão adentrou as ruínas de um velho galpão de  paredes marcadas por tiros  foi diversas vezes estuprada. No final da ultima sessão de violência ele cheirou um pó branco feito em carreiras sobre um CD e mandou que ela descesse, com o revolver na mão ele atirou contra a parede. As forças dela  diminuíram e um suor frio caiu  do seu rosto, ele com a voz excitada pela droga e comprimida pelo cigarro preso na  boca mandou que ela se ajoelhasse e levantasse o rosto para ele. Rezando baixinho com a certeza que morreria ali, Angelina ainda pediu pela vida  enquanto ele encostava o cano da arma na sua cabeça. De repente com a outra mão ele tirou o pênis fora da braguilha e começou urinar no rosto dela, quanto mais ela chorava ele se sentia realizado, e ordenava que ficasse de rosto para cima para tomar banho. Foram dois tiros certeiros na cabeça e o bandido caiu sem vida. Walter o noivo de Angelina tremia com a Ponto Quarenta na mão, enquanto Shirlayne uma das madrinhas  a cobria com uma toalha.  O condutor da Limusine prestava depoimento com as algemas nos braços, dizia que não conhecia o caminhoneiro morto, mas não explicava o por quê do GPS do carro desconectado e o celular desligado.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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