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Evasão escolar favorece a entrada de jovens no mundo do crime

Evasão escolar favorece a entrada de jovens no mundo do crime

Evasão escolar favorece a entrada de jovens no mundo do crime
Evasão escolar favorece a entrada de jovens no mundo do crime

 

O abandono dos estudos pode ser uma ponte direta para a vida do crime. Dados preliminares de um estudo que será lançado pelo Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), no próximo mês, apontam que 70% dos jovens brasileiros entre 14 e 19 anos que são vítimas ou autores de homicídios estão fora da escola há pelo menos dois anos.

A julgar pela quantidade de crianças e adolescentes longe das salas de aula em todo país, o futuro pode ser temeroso. Segundo o próprio Unicef, há 2,8 milhões de brasileiros entre 4 e 17 anos de idade sem estudar. Em Minas, segundo Estado no ranking de evasão, há 239 mil jovens nessa condição.

Os motivos apontados por especialistas são velhos conhecidos. Discriminação racial, homofobia, exploração sexual e, sobretudo, trabalho infantil. A situação é ainda mais delicada no caso dos adolescentes de 15 a 17 anos – grupo que lidera a evasão em Minas.

“As maiores taxas de reprovação na escola são no 8º ano do ensino fundamental e nos 1º e 2º anos do ensino médio. Depois de duas, três reprovações, esses jovens começam a deixar a escola. Muitos deles, sem a educação a que têm direito, ingressam no mundo do trabalho em condições precárias”, analisa o chefe da área de educação do Unicef no Brasil, Ítalo Dutra.

Contexto

Representante da Pastoral do Menor da Arquidiocese de Belo Horizonte, Marilene Cruz afirma existir um conjunto de fatores que contribuem para que os jovens se envolvam com a criminalidade. No entanto, ela destaca que nenhum deles é tão crucial quanto o distanciamento da sala de aula.

“O perfil familiar desse jovem influencia muito, mas a saída da escola é preponderante nos casos de envolvimento com práticas criminosas. Se a gente compara dados dos relatórios da Vara Infracional, percebemos que a maior concentração de casos é a de meninos que não conseguiram concluir o ensino fundamental ou médio”, explica.

A situação de miséria é outra marca constante dentro do grupo de jovens que deixaram de frequentar unidades educacionais. Mais da metade dos meninos e meninas em evasão vêm das camadas mais vulneráveis da população, que já são privadas de outros direitos constitucionais, como saúde e saneamento básico. Do total, 53% vivem em domicílios com renda per capita de até meio salário mínimo.

Dificuldades

A coordenadora do Fórum de Erradicação e Combate ao Trabalho Infantil e Proteção ao Adolescente Trabalhador (Fectipa), Elvira Mirian Veloso de Mello Cosendey, cita pelo menos três motivos que influenciam diretamente o abandono dos estudos: o desinteresse, a pobreza e o trabalho infantil.

“O cansaço físico atrapalha demais. A criança dorme mais que o adulto. O adolescente também dorme mais, tem mais hormônios. O sono ajuda na memorização. O trabalho noturno como temos nas ruas de Belo Horizonte, com crianças indo dormir à meia-noite, 1h da manhã, e tendo que acordar cedo para ir para a escola atrapalha o desempenho”, enfatiza.

Por fim, mas não menos importante, Elvira avalia que há um desinteresse das crianças e adolescentes em relação aos estudos. “Isso porque a linguagem escolar e os conteúdos muitas vezes não retratam a realidade dos alunos”, destaca.

Políticas contra trabalho infantil esbarram em questão cultural

Quase 30% dos jovens com idade entre 4 e 17 anos que abandonaram a escola no Sudeste do Brasil estão em Minas. O cenário preocupante afeta as regiões que historicamente são mais carentes, como o Norte mineiro.

Diante esse cenário, os esforços do poder público para reverter a situação foram concentrados nas Ações Estratégicas do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (AEPETI).

De acordo com a Secretaria de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social (Sedese), há uma campanha de conscientização e combate à valorização do trabalho infantil em desenvolvimento.

Hoje, 72 municípios mineiros estão sendo contemplados pela estratégia. Além deles, outros 48 com alta incidência de crianças que trabalham.

“Esta é uma questão com forte componente cultural, dirigido às famílias pobres. É uma forma sutil de manter a reprodução das relações de exploração, exclusão e a limitação de oportunidades às crianças e adolescentes das famílias empobrecidas”, afirmou o órgão, por meio de nota.

Causa e efeito

Para a superintendente de Proteção Social Básica e Gestão do Sistema Único de Assistência Social da Sedese, Deborah Akerman, o início do trabalho na juventude tem uma relação direta com o abandono dos estudos.

“Há mitos como o de que ‘é melhor trabalhar do que roubar’ ou ‘0 trabalho deixa os meninos longe das drogas’. A questão geracional influencia muito. Pais que trabalharam quando eram crianças acabam colocando os filhos para trabalharem muito cedo”, explica.

Para tentar desfazer o senso comum sobre a necessidade de trabalhar antes da hora, Deborah explica que uma campanha será criada pela secretaria para trabalhar os mitos que, ao invés de ajudar, podem prejudicar a vida de muitos jovens.

“Vale lembrar que o trabalho é permitido apenas a partir dos 16 anos. A partir dos 14, somente em situação de aprendizado. Ainda assim, a lei proíbe que esses jovens carreguem peso e exige a frequência na escola nesses casos”, destaca.

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