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Na Copa, Índia vive onda de idolatria à seleção brasileira

Na Copa, Índia vive onda de idolatria à seleção brasileira

O futebol, sobretudo em ano de Copa do Mundo, é capaz de mobilizar torcedores de uma maneira impressionante e até impensada. O fanatismo pelo esporte mais popular do planeta desperta emoções que, em alguns casos, surgem de onde menos se espera. Em tempos em que, segundo pesquisas, o apoio à seleção brasileira e o interesse pelo Mundial diminuem no nosso país, o time do técnico Tite é motivo de uma onda de idolatria na Índia. Por mais inusitado que possa parecer, do outro lado do mundo surgem manifestações tão ufanistas quanto curiosas, e milhares pessoas vestem, literalmente, a camisa amarela como se defendessem sua própria nação.

Cartazes gigantes de Neymar, fachadas de prédios pintadas de verde e amarelo e bandeiras do Brasil por todos os lados. Poderia ser em qualquer cidade do nosso país, mas é em Kerala, a mais de 15 mil km daqui
Cartazes gigantes de Neymar, fachadas de prédios pintadas de verde e amarelo e bandeiras do Brasil por todos os lados. Poderia ser em qualquer cidade do nosso país, mas é em Kerala, a mais de 15 mil km daqui

 

A adoração por Neymar e companhia está evidenciada nas ruas do estado de Kerala, no sudoeste do país, onde é fácil se deparar com cartazes gigantes do astro da seleção pelas ruas. O amor dos indianos pelo futebol brasileiro também está nas redes sociais. A página no Facebook “Brazil Fans Kerala” possui quase 320 mil curtidas. Com fotos, vídeos e declarações emocionadas de apoio, a comunidade virtual mostra todo seu fanatismo pela seleção. Além dos jogadores do time de Tite, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo e Kaká também são reverenciados

Sambu Kamar é um dos administradores da página. Segundo ele, que torce pela seleção desde 1994, o dom de jogar futebol, a atitude e a história por trás dos grandes times são as características que diferencia o futebol brasileiro dos demais. O indiano acompanha cada passo do time pentacampeão. De Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, onde mora, Kamar não perde uma notícia sequer sobre os comandados de Tite.

Confiante, ele adota um discurso otimista que poderia muito bem ser de qualquer fanático pela seleção canarinho. “Temos o treinador e os jogadores perfeitos para vencer esta edição. Acredito que o Brasil vai fazer bonito nesta Copa e ser campeão. Neymar, Philippe Coutinho e Casemiro são grandes jogadores e jovens. Eles nos vingarão pela derrota desastrosa em casa na última Copa”, afirma.

Rinson Sebastian não sabe de onde vem sua paixão pela seleção brasileira, mas se considera “um fã louco” desde 1998. Ele mora Kerala, no país de Deus, como o próprio se refere à Índia. “O zagueiro Thiago Silva é o meu jogador favorito e tenho um sentimento de irmandade para com ele. É como se fôssemos muito próximos ou já nos conhecêssemos de algum lugar”, conta o torcedor.

Em meio a tantas manifestações de reverências ao nosso futebol, a belo-horizontina Ieda Dias se mostra surpresa. Ela faz viagens regulares à Índia desde 1981 e mora há sete anos em Bodhgaya, uma cidade do estado de Bihar com cerca de 30 mil habitantes e que fica uma das regiões mais pobres do país. Tal idolatria pelos jogadores brasileiros é uma novidade para ela.

“Nessa Índia onde eu moro, eles não sabem mutio sobre o futebol brasileiro. Às vezes, quando saio na rua, os meninos brincam e me chamam de Neymar, de Ronaldo. Mas, mesmo assim, eles não têm muita noção de futebol no geral”, diz a brasileira, que faz parte de um projeto chamado “Premanetta School”, que atende crianças pobres no país. “Essa paixão toda não é na Índia que eu conheço”, completa.

Porém, Ieda pondera e diz que o fenômeno pode ser provocado pela Copa do Mundo, embora ela também diga que, em 2014, não notou nada especial naquele Mundial. “Não sei de onde surgiu isso, vou até pesquisar. Acredito que seja nos grandes centros e em épocas muito pontuais. Para mim é uma surpresa total”, comenta a brasileira.

Rivalidade e briga de faca. Bangladesh tem 160 milhões de habitantes e está a quase 16 mil km de Belo Horizonte. A seleção do país ocupa a posição de número 194 entre 211 seleções registradas no ranking da FIFA e o futebol está longe de ser preferência nacional. Isso já seria motivo suficiente para a população não se interessar pelo esporte, certo? Errado.

No país asiático, os torcedores estão levando tão a sério a paixão pela seleção brasileira que, nesse período de Copa do Mundo, é muito comum ver o verde e o amarelo pelas ruas, fachadas de prédios pintadas com as cores da bandeira do Brasil e grafites dos jogadores espalhados pelos muros de Dhaka, capital e maior cidade do país. Até a rivalidade futebolística com a vizinha Argentina foi importada pelos bengaleses.

Segundo uma matéria da Agence France-Presse (AFP,) pessoas estão se agredindo nas ruas na ânsia por defender Neymar e Messi e ganhar o debate de qual seleção é, de fato, a melhor. Neste período de Copa, Dhaka está dividida entre os que amam Neymar e companhia e os que veneram Messi e sua seleção. Na semana passada, a idolatria chegou a níveis preocupantes quando torcedores usaram facas em uma briga. De acordo com a polícia, um pai e seu filho ficaram gravemente feridos.

“Pelé era um ídolo aqui. A história dele estava em nossos livros. Então já havia uma torcida pelo Brasil. Mas a Argentina roubou corações em Bangladesh depois dos feitos de Maradona em 1986. Acho que foi quando essa rivalidade aqui começou”, explicou M. M. Kaiser, editor de um portal de esportes, à AFP. O fenômeno intriga o professor de socioogia da Universidade de Dhaka, Nehal Karim. “Muitas dessas pessoas não sabem onde fica o Brasil e a Argentina. Não há laço de sangue ou língua, e ainda assim são loucos por eles. Não entendo isso”, afirma o acadêmico.

Em 1970, seleção foi “adotada” pela torcida mexicana

Não é novidade que o futebol brasileiro tem seguidores pelos quatro cantos do planeta. Desde que Pelé e Garrincha se juntaram para levar a seleção ao primeiro título, em 1958, uma legião de apaixonados começou a seguir nossos jogadores. É bem verdade que, de uns bons anos pra cá, muito da magia ficou pelo caminho e as atuações espetaculares da seleção canarinho de outrora embalam as lembranças dos torcedores mais nostálgicos.

Em 1970, na Copa do México, a população de Guadalajara adotou a seleção comandada pelo técnico Zagallo na campanha do tricampeonato. Desde a preparação para o torneio, Piazza, Tostão, Rivellino, Gérson, Pelé, Jairzinho e outros craques se sentiram em casa com tamanho apoio. Quando os anfitriões foram eliminados nas quartas de final, a torcida pela pela equipe brasileira atingiu níveis. O esquadrão de 70, considerado por muitos o melhor time de todos os tempos, só saiu da cidade localizada no oeste do país para golear a Itália, na Cidade do México, na finalíssima do Mundial.