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Vínculos não convencionais: Viver sozinho, mas não desconectado
Vínculos não convencionais: Viver sozinho, mas não desconectado / Foto: Freepick

Vínculos não convencionais: Viver sozinho, mas não desconectado

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Estamos mais conectados do que nunca e, ao mesmo tempo, mais sós. É um dado que já não surpreende: em muitas cidades do mundo, o número de pessoas que vivem sozinhas não para de crescer. Na Argentina, por exemplo, segundo o último censo, mais de 20% dos lares são unipessoais. Em países como o Japão ou a Alemanha, o número é ainda maior. E, embora viver sozinho não signifique necessariamente sentir-se só, cada vez mais estudos indicam que a solidão indesejada está a aumentar e afeta tanto a saúde física como a emocional.

Mas o curioso é como respondemos a essa carência. Não apenas com amizades ou relações tradicionais, mas também com vínculos que há apenas algumas décadas pareceriam estranhos: com animais de estimação humanizados, assistentes virtuais, influenciadores holográficos, bots conversacionais… e figuras hiper-realistas que ocupam o papel de companhia íntima.

Novas formas de apego em tempos digitais

A solidão do século XXI não é silenciosa nem passiva. Procura companhia de novas formas. E, muitas vezes, essa procura não passa por encontrar outra pessoa, mas por ligar-se a algo que esteja disponível, que não julgue e que não peça demasiado em troca. É aí que entram em jogo certos vínculos “não convencionais”, como começam a ser designados em estudos sociais: relações com inteligência artificial, com objetos personalizados, com projeções digitais e até com figuras físicas que representam a presença humana.

Um exemplo que começa a deixar de ser marginal é o das love doll de nova geração. Embora o termo possa remeter rapidamente para uma fantasia sexual, a realidade vai mais além: muitos utilizadores afirmam que o seu uso principal não é o sexo, mas sim a companhia. Fala-se com elas, veste-se-lhes roupa, sentam-se à mesa, dão-lhes nome e lugar no lar. Para além do que se possa pensar sobre isto, há uma necessidade profunda por trás: a de estabelecer contacto com algo — ou alguém — que proporcione uma forma de atenção e presença, ainda que não haja reciprocidade real.

Não é loucura, mas sobrevivência emocional

A psicologia fala de “objetos de transição” como aqueles que ajudam a acalmar, conter e organizar emoções quando não há outra pessoa disponível. Na infância, esse papel é desempenhado por um peluche ou uma manta; na idade adulta, pode assumir formas distintas. Não é infantil nem patológico. É uma adaptação.

Talvez por isso também se popularizem experiências como ter um assistente com voz humana a quem se pode falar de noite, ou seguir um influenciador que não existe mas transmite segurança e beleza inatingível. Estamos a encontrar formas de nos relacionarmos que não exigem expor-nos à rejeição, ao conflito ou à incerteza que uma relação real acarreta. Segundo um estudo da Universidade de Oxford citado pelo The Guardian, este tipo de vínculos unilaterais não só está a aumentar, como muitas vezes desempenha um papel positivo, pelo menos temporariamente, ao reduzir o stresse e a ansiedade social.

Corpos que acompanham sem pedir

Nesse universo surge novamente a figura da sex dolls, mas não como objeto sexual, e sim como companhia silenciosa, tangível, que pode adaptar-se às rotinas de alguém que, simplesmente, não quer estar sozinho. Em alguns casos, assemelham-se mais a estátuas de companhia do que a ferramentas eróticas. Há pessoas que convivem com elas durante anos, como se fossem parte da família. Não se trata de doença mental, mas de uma forma de enfrentar a solidão extrema.

Será isto uma solução? Ou uma maneira de evitar os desafios dos vínculos humanos? Provavelmente ambas as coisas. O certo é que o mundo muda mais depressa do que os nossos esquemas emocionais, e as formas de afeto também se transformam. Onde antes havia cartas, hoje há áudios de WhatsApp. Onde antes havia casamentos por conveniência, hoje há relações poliamorosas. E onde antes só havia pessoas, hoje também há inteligências e corpos criados para estarem presentes, ainda que não estejam vivos.

O afeto procura caminhos?

Não é momento de julgar, mas de compreender. O afeto humano procura formas. Às vezes com outros humanos, às vezes com animais, às vezes com representações. O importante é perceber que necessidade está por trás de cada vínculo. Porque, se há algo que é claro, é que a solidão não se erradica com mais Wi-Fi ou mais redes sociais. Acalma-se quando há alguém — ou algo — que parece estar lá, ainda que seja apenas por uns minutos, ainda que não responda, ainda que não respire.

Num mundo hiperconectado mas emocionalmente fragmentado, talvez a verdadeira revolução não esteja em inventar novos vínculos, mas em compreender porque é que os estamos a precisar. E o que dizem sobre nós.

 

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