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Coluna do Nilson Apollo – Quão frágeis estamos – quem nos para?

Coluna do Nilson Apollo – Quão frágeis estamos – quem nos para?

A semana foi tensa, parou-se tudo, faltou-se de quase tudo, ganhou-se quase nada, e evidenciado ficou que; estamos no limiar entre uma pseudo-ordem e o caos total.

Ainda ninguém sabe, de onde partiu a ordem para parar tudo. O Brasil é muito extenso, são 8.516.000 km² (oito milhões, quinhentos e dezesseis mil quilômetros quadrados), vascularizado em 1.610,076,00 km (Um milhão, seiscentos e dez mil e setenta e seis quilômetros (dados de 2004), a quarta maior malha rodoviária do mundo, onde circulam 56% de toda a produção nacional, onde circulam quase dois milhões de caminhões diariamente.

Este que vos escreve já experiênciou o oficio, por quase dois anos, e conheceu um pouco dessa realidade. As estradas são péssimas, quanto mais distante o rincão, menos se percebe a presença do estado, e consequentemente aumenta-se o risco, de vida ou do patrimônio, transportado ou veicular, e também amargou horas sem poder se alimentar, porque precisava abastecer. E entre abastecer-se ou abastecer ao caminhão e acabar de chegar ao destino, infelizmente, abastecia-se o caminhão.

O salário, que a julgar pelo sacrifício em jornadas infindas, dias e noites, além da ausência de casa, e exposição ao risco, que deveria estar à altura do martírio, não era lá “essas coisas”…

Em minhas observações, eu sempre me divertia com a rotina, linguagem própria, e assiduidade no acompanhamento das novelas televisivas por parte dos caminhoneiros, que debatiam às gargalhadas sobre os rumos dos personagens em destaque. Aquilo era novidade para mim, eu não sabia que gostavam tanto.

A desses motoristas estavam acima do peso, bem acima do peso, devido a posição estática e constante.

Muitos, faziam uso de remédios “Desobesi”, quimicamente composto de cloridrato de femproporex, e vulgarmente conhecido como “rebite”, para ficarem “acesos” e atenderem a demanda dos patrões, uma aberração desumana, uma vez que poucos sabiam que o tal “rebite” atua no sistema nervoso central e podem causar: “vertigem, tremor, irritabilidade, reflexos hiperativos, fraqueza, tensão, insônia, confusão, ansiedade e dor de cabeça.

Sistema cardiovascular: calafrios, palidez ou rubor das faces, palpitação, arritmia cardíaca, dor anginal, hipertensão ou hipotensão e colapso circulatório.

Trato gastrintestinal: boca seca, gosto metálico na boca, náusea, vômito, diarreia e câimbras abdominais.

Sistema endócrino: alteração da libido, e o uso crônico pode causar dependência psíquica e tolerância”.

Confesso que na aurora da juventude, da falta de juízo, além de querer “ser do meio”, experimentei essa droga, licita, porém danosa, quando administrado sem prescrição médica.  Por fim, o solitário chofer, dorme com os olhos abertos, e até sonha, mesmo transportando toneladas de produtos Brasil à fora.

Outra mazela que vivencie, e revoltado e impotente engolia à seco, eram as propinas, que religiosamente pagávamos à agentes públicos que originalmente, deveriam serem os mantenedores e cumpridores das leis, eram os que nos lesavam. A primeira e amarga experiência me ocorreu em Arapiraca, no estado de Alagoas, em 1996.  Eu observava isso tudo e mais um pouco, inclusive, a impossibilidade de aquela categoria se organizar tal como fizeram nesta paralisação, agora em 2018.    Levemos em conta que naquela época não existiam as redes sociais, e o contato se dava mesmo através dos obsoletos telefones fixos. Mesmo assim, desconfio, da capacidade da categoria em organizar-se de maneira tão eficiente e eficaz.       Operacionalmente, foi um sucesso. Ideologicamente, já não sei, pois, efetivamente não vi resultados proporcionais ao movimento.  Seriam mesmo os caminhoneiros os artífices dessa greve? O que ganharam de fato com isso? R$ 0,46 centavos? Retirados de nossos próprios bolsos? Inclusive deles próprios já que o tesouro nacional será onerado e outras áreas de primeiras necessidades serão afetadas?

Sinceramente, pensei que eles exigiriam além de reajuste decrescente nos combustíveis, melhores estradas, melhores salários, melhores condições de financiamento de veículos, mais segurança e maior apoio nas estradas, além de uma melhor previdência social, pois, em suma, eles são esquecidos solitários em suas boleias de caminhões.

Estou tentando ainda entender esse imbróglio todo, e constatar as benesses da paralisação, que a meu ver, como reflexo, trouxe um imediato e exorbitante prejuízo à sociedade, que apoiou ao movimento e sofreu com a alta dos produtos alimentícios, e sem consciência, ajudou a “boicotar” ao movimento, entrando em quilométricas filas para abastecerem seus veículos à preços também exorbitantes.

Definitivamente, eu não entendi o desfecho disso tudo…

E o governo, será que teve noção do risco que agora corre, por não haver investido na malha publica ferroviária?   Estamos com um sério problema para o futuro, não temos alternativas logísticas, e não sabemos com quem haveremos de negociar, caso decidam novamente “pararem” o país?

Não sei se isso voltará a acontecer, mas caso aconteça, elejam a um conselho por unidade federativa, e algum porta voz de todos, além de elencar melhor as reinvindicações, e se possível, controle os exacerbados que frente aos celulares, esmurraram, esbofetearam, apedrejaram, e mataram pais de famílias da própria categoria.

E a população, deixem de serem IDIOTAS, comprando produtos acima do preço…

Aos comerciantes, torço para que seus clientes sejam conscientes e boicotem seus comércios que elevaram os preços acima do que esperávamos de um oportunista…. Vocês foram desumanos, além de criminosos…

E quanto ao governo… esse já nasceu morto…. Que venham estadistas, que invistam em ferrovias, e equilibrem esse poder… Já que agora os caminhoneiros sabem que são muitíssimos mais fortes do que imaginavam, e imaginávamos … Eles têm o poder de parar polícia, hospitais, escolas e todo o comercio desse extenso Brasil e implantarem o caos social que nos transporte de volta à barbárie… Eles, os “esquecidos, barrigudos, incultos e tomadores de rebite e assistidores de novelas”…

Ou seus patrões… Não sei…

Enfim… abandonei o sonho de infância, mas ainda vejo-os, independente das motivações do momento, como heróis, aventureiros e responsáveis homens que transportam o Brasil quase que nas costas…

Que haja justiça e paz!

 

Nilson Apollo Belmiro Santos
Nilson Apollo Belmiro Santos

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