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Coluna do Adilson Cardoso – A Bicicleta e o silêncio

Coluna do Adilson Cardoso – A Bicicleta e o silêncio

Toicim e Tiririca moravam em Montes Claros, bairro Ypiranga, anos 80. As drogas eram personagens distantes da realidade de muitos adolescentes e jovens trintões e quarentões. Quando se ouvia dizer que fulano fumava um baseado os vizinhos já tratavam de blindar seus filhos, ferrar aquele usuário com uma marca bem visível era dever, para que em qualquer canto que ele fosse, uma seta vermelha estivesse  lhe apontando “maconheiro”. Muitas mães ameaçavam as filhas de mandá-las no “Trem de doido” para Barbacena se ao menos sonhassem que paqueravam um drogados. Toicim e Tiririca moravam na rua da baixada, ao lado do córrego, ali depois das dezenove horas era conhecido como “Passa-pau” os namorados até de outros bairros se amoitavam nas tabúas ou entre os arbustos sem iluminação e se amavam plenamente. A dupla de amigos fizera  dezenove anos no mesmo mês, um agosto quente e seco que obrigava algumas mulheres se levantar as madrugadas para seus banhos de mangueiras nos quintais, nas suas cabeças tinham a liberdade de fazê-lo despidas pelo horário avançado, mas não imaginavam que Quiroba, Jacaré e Goiaba Podre, três rapazotes adotados pela bronha já tinha suas estratégias de espionagem. Dona Guta esposa do Sargento Botelho, Dona Sinhá avó de Jocélio Caolho e a meiga dona Carlotinha professora da Escolinha João Sodré.  Os maridos jamais desconfiaram que além deles outros olhos comiam suas esposas, até o dia em que Toicim e Tirica roubaram uma bicicleta e uma galinha D’angola na casa de Quiroba, um dos maníacos voyeurs. A “calanga” como chamavam as bicicletas na época ficava destrancada no inicio do corredor que dava acesso aos fundos da casa. A madrugada espichava o passo, quando os três saciados de mais uma sessão masturbadora tendo como mote os pneuzinhos de uma das senhoras, vinham pelas ruas contando as vantagens,  se depararam com Toicim empurrando a bicicleta e Tiririca com a ave já sem vida, dependurada em um cabo de vassoura. — Alto lá seus ladrões filhos de uma égua! – Gritou Quiroba  fazendo uma barreira no meio da rua. — É isso mesmo que vocês ouviram se der mais um passo, vai entrar na pancada! – Completou Jacaré abrindo a camisa para o confronto. — E eu estou junto! – Disse Goiaba Podre cruzando os braços. Toicim e Tiririca se olharam dizendo alguma coisa. — Como é que é Dom? Então vocês entram na minha casa, roubam a bicicleta do Velho, rouba o Cocá da velha e sai andando assim, na maior tranqüilidade?! Alguém aqui vai sair com o nariz sangrando! – Ponderou Quiroba, balançando a cabeça e olhando para os comparsas. — Sabe o que é Quirobosta! É que um passarinho ai nos contou que todos os dias em que a mulher do Sargento vai tomar banho no quintal, tem uns pares de olhos que não se desgrudam dela! Imaginem um cara que matou um sujeito só por que chamou ele de corno, se descobre  que tem neguinho rufiando a mulher dele, acho que o mínimo que ele fará é capar o infeliz e fazer engolir os ovos! Vocês não acham? E Jocélio Caolho? Anda louco para estrear o revolver que comprou, o olho do bicho, parece um tomate maduro de tanto fumar maconha! Imagina um capeta daquele com raiva, ainda mais de gente tocando bronha para a avó dele? – Toicim concluiu sem pressa sua fala e acendeu um cigarro, baforou no silêncio dos algozes e disse após alguns minutos. — Toma ai a bicicleta do seu pai, você vai precisar de correr muito! Quiroba abotoando a camisa cochichou ao pé do ouvido dos seus amigos e disse timidamente. — Pode ficar ai com a calanga do velho, Não vamos caçar desavença por causa disso não!

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso