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Adilson Cardoso

Coluna do Adilson Cardoso – Fora do Jogo

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Coluna do Adilson Cardoso – Fora do Jogo

Quando era criança e até um tempo pós adolescência, a exemplo de grande parte dos seres, estereotipava as pessoas, não era com maldade interior, talvez por ingenuidade. Fanático com filmes de Kung Fu, às vezes passava madrugadas inteiras vendo os homens de olhos puxados voarem batendo em pés de coqueiros, dando saltos mortais em edifícios e lutando às vezes um sozinho contra um numero incontável de gente. Eu estava na sexta série e estudava numa escola próxima a minha casa, quase todos os dias havia espetáculo briga na saída, as meninas mais bonitas eram as causadoras das contendas, quando alguma banalidade levava a uma pequena discussão vinha uma delas perguntar para um se estava com medo do outro, é claro que ninguém por mais borrado que estivesse não assumiria que era covarde. Lucélia e Brígida eram as donas do combustível que atiçava o fogo. Geralmente a noticia da peleja se dava após o recreio, faltando dois horários para findar a aula, quando tocava o sinal para que o penúltimo professor saísse, uma delas ia a frente anunciar o nome dos combatentes, miravam o tipo físico e assumiam torcidas, com direito a saírem comunicando as salas adjacentes que “La fora teria pau” por receio da suspensão por brigar em frente ao portão da escola, os duelos aconteciam numa esquina cem metros adiante. Eu só era corajoso com dois dos quinze colegas do sexo masculino, Iranildo e Paçoca, os menores da sala, inteligentes e calados, mas magricelas e medrosos, eu andava procurando motivos para chamar um dos dois para um desafio, mas nenhum se prontificava a encarar. As duas incendiárias os tinha como invisíveis, nem se aproximavam para tentarem induzi-los ao ringue. Mas tinha um sujeito esguio e estrábico com os lábios Simpson, de nome Luedio que não achava interessante as minhas insinuações, certa vez por estar próximo as meninas coloquei o pé para derrubar o Paçoca, a cena foi engraçada, as duas rolaram de rir, mas o sujeito estranho apontou o dedo esquelético em minha direção, era gago por isso quase não falava, naquela época zombar de gagueira ainda não era bullyng. Dissera ao meu ouvido, “Lá fora vou te quebrar na pancada!” Na hora o coração desatinou um samba medonho, precisava conter aquela fúria bestial, porém quando me encostei para lhe implorar sem que ninguém visse, as diabólicas gritaram, “Au, au, au hoje vai ter pau!” Lucelia já tratou de se encostar ao meu lado, enquanto Brígida pousou a mão no ombro dele, começaram surgir às palavras de incentivo, “Olha quando sair do portão você já passe a rasteira nele!” isto no meu ouvido. No dele fui capaz de escutar “Quero ver se ele faz com você o que faz com Iranildo e Paçoca!” O pior é que ele não ficou calado, “Pode deixar, vou tirar um litro de sangue deste nariz dele!” Com um ataque inesperado de tremulações nas pernas precisei fazer alguns movimentos para não cair sobre o corpo, “Você está com medo?” Falou a diabólica ao meu lado. “Claro que não! Quando fico com raiva tenho tremulações nas pernas, vontade de voar em cima e arrancar a cabeça!” aquela fala fora combustível para a algazarra das duas e mais outras que entravam no côro, o pior é que o sujeito não desviava os olhos de mim. Ao tocar o sinal vimos o professor de Geografia sair da sala ao lado e vir em nossa direção, Lídio fechou a mão direita em forma de soco e bateu na esquerda espalmada, li pavorosamente em seus lábios “Vou te moer na pancada!”, minha cabeça girou, já sentia um gosto sangrando no meu paladar quando o professor pediu que eu fosse até a sala dos professores e pegasse a caixa de giz esquecida por ele, naquele momento, senti que era o ultimo respiro, poderia encenar um tropeço e bater a cabeça no chão, parar no hospital por conta de uma queda não seria desonra assim a idéia foi crescendo, até me via com a perna ou o braço gessado, ficando dois dias de atestado sem precisar preocupar-me com as aulas. Mas e a bola? O jogo do União Esporte Clube time que eu jogava, uma das partidas mais esperadas do Campeonatinho era contra o Santos do Monte Carmelo. A aflição voltaria em doses extravagantes de adrenalina, o suor molhava as axilas, a cabeça esquentava, à hora estava chegando, mas algo de bom ainda poderia acontecer naquela via-crúcis. Ao passar pela porta do banheiro masculino um “Ei Psiu!” insistente, quando voltei para olhar era Shaolin, estudante da oitava série de olhos apertados e cabelos lisos feito chinês. Ele estava há horas ali dentro precisando de papel higiênico para concluir suas atividades no vaso. Solicitamente entreguei-lhe algumas folhas de caderno, agradecido saiu dizendo que eu havia lhe salvado a vida. Sem ter outra alternativa pedi imediatamente que fosse ressarcido, assim que findassem as aulas. O combinado seria eu começar o enfrentamento dando a primeira pernada e o restante Shaolin faria. Eu me enchi de forças, desta vez era eu quem apontava para o sujeito e lhe mostrava o soco, as meninas incendiárias pareciam delirar, o colégio inteiro já sabia. Na saída olhei para todos os cantos e não vi Shaolin, mas pensei comigo, nos filmes de Kung Fu alguns lutadores se camuflam para chegarem com suas voadoras, dando saltos mortais ou voando de alguma  árvore. Fiz o combinado, olhei naqueles olhos estrábicos e disse venha, e ele não se esquivara, usando mãos e pés feito aranha gigante me acertou a perna e a orelha junto, dei dois passos para trás e a platéia gritava “Porrada, porrada!” tentei fazer uma ginga de capoeira e tomei outra na costela, ali comecei a preocupar-me, enquanto apanhava procurava Shaolin camuflado naquelas pessoas, na sombra do poste ou numa janela alta da casa amarela, onde pessoas assistiam meu penar. Como a gingada de capoeira não funcionou resolvi entrar sem técnica nenhuma, porradas ao vento, aqueles em que o braço gira para acertar onde for possível, mas Luedio havia se preparado para aquilo também e entre os meus braços viera o dele com um violento cruzado no meu queixo. Nesta hora eu cai, sem tempo para pedir água. Quando acordei estava deitado numa cama de hospital com o braço gessado e um frasco de soro descendo pela veia. Talvez não fosse mesmo para eu jogar no domingo.

 

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